FMI quer reforma financeira global

Fundo defende que mudanças propostas por Obama também devem ser implementadas nos países do G-20

Rolf Kuntz, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Staruss-Kahn, defendeu ontem uma reforma financeira coordenada entre todos os países do Grupo do 20 (G-20). Além disso, é indispensável apressar a mudança, aproveitando o momento político, acrescentou. As propostas apresentadas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estão no rumo certo, mas não deve haver diferenças entre as mudanças implementadas pelos vários países, insistiu Strauss-Kahn. Essa é uma condição indispensável, segundo ele, para se diminuir o risco de novas crises. Se os bancos forem submetidos a tratamentos distintos em diferentes países, isso afetará - esse é o argumento - a estratégia de cada instituição e os fluxos de capitais. Strauss-Kahn participou ontem de um debate no Fórum Econômico Mundial, juntamente com autoridades e especialistas de vários países.

A reforma coordenada é tecnicamente a melhor solução, disse depois ao Estado o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. As linhas principais já foram traçadas pelo Conselho de Estabilidade Financeira, por determinação do G-20. Os governos submetidos à maior pressão política, ressalvou, devem avançar e buscar depois a conciliação dos novos critérios com os demais países. Esse é o caso dos EUA, onde houve uma grande reação à distribuição de bônus pelos bancos ajudados com dinheiro público.

A ministra da Economia da França, Christine Lagarde, defende o avanço das mudanças em cada país e a conciliação entre os vários sistemas de regras. Seria, segundo ela, uma forma de ganhar tempo. Uma reforma coordenada, argumentou, seria mais complicada.

A opinião de Meirelles leva em conta, de certa forma, as posições de Strauss-Kahn e de Lagarde, embora favorecendo a coordenação. Se cada país adotar um tipo de legislação, será aberto espaço para os banqueiros escolherem os mercados mais atraentes.

O projeto do Conselho de Estabilidade Financeira é completo, segundo o presidente do BC, porque responde tanto às inquietações da opinião pública quanto às necessidades de uma reforma ampla e eficaz. O Conselho é formado por representantes dos bancos centrais de todos os países do G-20, incluindo o Brasil, e o resultado de seu trabalho já foi incorporado ao arsenal de normas do Banco de Compensações Internacionais, de Basileia (Bank for International Settlements, BIS).

As mudanças propostas são complexas e a implantação levará algum tempo. As diretrizes mais amplas estão definidas e serão detalhadas até o fim de 2010. As legislações serão adaptadas em 2011 e as mudanças deverão entrar em vigor até o fim de 2012.

Executivos dos bancos têm resistido à mudança, porque as novas normas diminuirão a lucratividade e tornarão mais difícil, segundo argumentam, atrair capital. Meirelles contesta esse argumento. A reforma dará maior estabilidade e maior previsibilidade ao sistema e isso poderá atrair de volta investidores tradicionais, mais preocupados com a segurança e com os ganhos de longo prazo. Mas a rentabilidade bancária de curto prazo deverá cair, invertendo-se a tendência dos últimos anos, quando as instituições ganharam muito dinheiro, em pouco tempo, com operações de alto risco. Isso desembocou na crise. Com lucratividade menor no curto prazo, os bônus para executivos também deverão ser menores, observou Meirelles.

PARTE DO PROBLEMA

Mas a reforma bancária, acrescentou, resolverá apenas parte do problema. A crise financeira foi favorecida pelas falhas de regulação nos grandes mercados, como o americano, mas sua causa profunda foi o conjunto de desequilíbrios internacionais. O principal desses desequilíbrios, ainda presente, é o das relações entre China e EUA. De um lado do quadro estiveram o alto consumo nos EUA, os desequilíbrios fiscal e de balanço de pagamentos e os juros muito baixos durante muito tempo. Do outro lado, como complemento, a elevada poupança chinesa, o superávit das contas externas da China e o dinheiro para financiar os déficits americanos. Nos EUA, os juros foram mantidos baixos porque o núcleo do índice de inflação (core inflation) incorporava os preços baixos dos produtos industriais chineses, mas não a alta de preços dos produtos básicos. A política frouxa de juros, nos EUA, estimulou o endividamento e a formação da grande bollha de ativos, principalmente imobiliários.

A solução desse problema ficará fora do alcance da reforma bancária. Dependerá da mudança dos modelos de crescimento adotados nas duas grandes economias

Outros analistas expuseram argumentos semelhantes, nas discussões dos últimos dias, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

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