Foco explícito na canonização

Relato da trajetória de d. Luciano Mendes de Almeida visa seu reconhecimento como santo

José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

Mesmo que a intenção da autora não tenha sido escrever uma hagiografia, esse livro lançado por ocasião do terceiro aniversário da morte de d. Luciano Mendes de Almeida (1930- 2006) será mais uma contribuição para a esperada causa de sua canonização. Seu sucessor na Arquidiocese de Mariana (MG) e na presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Geraldo Lyrio Rocha, está aguardando apenas que se completem os cinco anos previstos pela Igreja Católica para abrir o processo de beatificação, primeiro estágio para o reconhecimento oficial de mais um santo brasileiro.

Escrito por irmã Neusa Quirino Simões, que como secretária de d. Luciano acompanhou os seus passos e registrou seus escritos por muitos anos, Em Nome de Jesus, Passou Fazendo o Bem é o terceiro livro publicado nessa mesma linha e, supostamente, com a mesma intenção, desde 2007, quando saiu Dom Luciano, o Irmão do Outro (Educam/Paulinas), do professor Cândido Mendes, membro da Academia Brasileira de Letras, um dos seis irmãos do biografado. O terceiro livro, de 2008, é Deus É Bom (Paulinas), uma homenagem a d. Luciano, como diz o subtítulo na capa. Organizado por Maria Helena Arrochellas, reúne textos de cardeais, bispos, governantes, teólogos, freiras, políticos, jornalistas, todos eles amigos e admiradores.

"DEFEITOS"

A intenção de apressar a eventual canonização é explícita, como se vê logo no prólogo escrito pelo padre jesuíta Luís González-Quevedo para o livro de irmã Neusa. Ao apontar dois defeitos de d. Luciano, confessa o sacerdote, ele pretendeu facilitar "a ingrata tarefa do chamado Advogado do Diabo no processo de canonização". Dois "defeitos" que, na realidade, não pesariam nada contra o ex-presidente da CNBB: "assumia mais compromissos dos que podia dar conta e deitava muito tarde". Eram duas características que, ao passar pelo crivo de Roma, poderiam soar até como qualidades. "O sr. Advogado do Diabo vai ter de me perdoar, mas eu não consigo encontrar mais defeitos naquele santo", conclui padre González-Quevedo, em seu testemunho devoto e decididamente parcial.

Como as obras anteriores, as duas também com traços de hagiografia, Em Nome de Jesus condensa informações biográficas da admirável carreira de d. Luciano - desde a infância numa mansão da família na Rua Marquês do Paraná, no bairro de Botafogo, no Rio, onde nasceu, até seu trabalho pastoral como bispo auxiliar do cardeal d. Paulo Evaristo Arns em São Paulo e arcebispo, por 18 anos, da Arquidiocese de Mariana. A esses dados, irmã Neusa acrescenta a transcrição de textos, alguns inéditos, de homilias, conferências, escritos e intervenções de d. Luciano em congressos, sínodos e reuniões episcopais de que participou, mais de uma vez com a presença do papa. A autora evita temas polêmicos, ou passa ao largo de situações embaraçosas.

Ao lembrar a escolha de d. Luciano, quando ele foi nomeado, em 1976, bispo auxiliar de São Paulo, irmã Neusa omite a dificuldade que o cardeal Arns enfrentou para convencer o papa Paulo VI a referendar os nomes de seus dois candidatos - d. Luciano e d. Antônio Celso de Queirós, mais tarde secretario geral da CNBB e primeiro bispo de Catanduva (SP). "Para a apresentação desses dois ao Santo Padre, foi travada uma grande batalha", escreveu o cardeal em sua autobiografia Da Esperança à Utopia (Sextante, 2001). Se havia objeções políticas, supostamente pelo engajamento dos dois candidatos em causas sociais, no caso de d. Luciano o que se alegou foi que ele era jesuíta e que religiosos da Companhia de Jesus não assumiam cargos na hierarquia eclesiástica. "Tem tanto jesuíta que é bispo por aí... põe o nome dele", insistiu d. Paulo com d. Benedito Ulhôa Vieira, então um de seus bispos auxiliares, mais tarde arcebispo de Uberaba (MG). A revelação desses bastidores está nas páginas de Dom Paulo Evaristo Arns, um Homem Amado e Perseguido (Editora Vozes), de Evanize Sydow e Marilda Ferri.

ARTIGOS

Irmã Neusa dá ênfase ao trabalho pastoral de d. Luciano e às virtudes heroicas de um homem que, nascido nobre e rico - era neto do senador Cândido Mendes de Almeida e tataraneto do Marquês do Paraná -, renunciou aos bens e confortos da vida para se dedicar aos pobres e excluídos. Era um homem de diálogo, sempre capaz de ouvir, defendendo com firmeza suas ideias, quando se tratava do interesse da Igreja. No caso da venda da Vale do Rio Doce, foi contra o processo de privatização e sofreu consequências pessoais por assumir essa posição. Seus adversários alegaram que ele se opunha à proposta do governo pelo fato de a companhia mineradora explorar jazidas no território da Arquidiocese de Mariana. É uma questão que chamará a atenção de Roma.

Além dos textos do arcebispo transcritos em suas biografias, em geral de caráter espiritual e teológico, assim como os pronunciamentos feitos em reuniões eclesiásticas, o Vaticano deverá analisar as centenas de artigos que d. Luciano publicou, semanalmente, em jornais e revistas. Ele escreveu até o fim da vida e, quando já não podia mais escrever, ditava os artigos para a secretária. Muitos deles tiveram conotação política, na medida em que o autor, falando pela CNBB ou como pastor de sua diocese, tratava de problemas sociais e econômicos. Em Nome de Jesus contribui com bom material, ao transcrever discursos e conferências que falavam de questões do cotidiano do povo brasileiro, como injustiça, violência, corrupção e impunidade.

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