Fofoqueiros vibrantes

No início da minha carreira de repórter em Londres, um veterano me chamou a sua mesa e passou um sermão. “Harnden, você está se comportando de maneira embaraçosa para a redação”, disse. “Está trazendo todas essas matérias, mas seus gastos são ridiculamente baixos.” Prestativo, abriu a gaveta da escrivaninha, repleta de recibos em branco de táxi e restaurante.

TOBY HARNDEN, Foreign Policy,

23 de julho de 2011 | 18h53

 

Veja tsmbém:

linkExplosão de raiva represada

linkO gosto do próprio veneno

Embora muitos anos tenham se passado desde que os jornais de Londres saíram da Fleet Street – onde meu diário, o Telegraph, tinha seu próprio pub, no qual o editor apanhava os repórteres bêbados quando havia uma notícia de última hora –, seu espírito vive. O correspondente internacional do Sunday Times Nicholas Tomalin, já falecido, estava certo quando observou que as qualificações mais exigidas de um hack (“escriba”) eram ser “astuto como um rato, ter modos convincentes e certa habilidade literária”.

 

Enquanto nossos colegas americanos se comparam a advogados e médicos, nós, "escribas" britânicos, ainda nos vemos praticantes de um ofício de xeretas, e não membros de uma profissão respeitável. Na década de 90 era praxe entre os repórteres britânicos passar três horas sobre um lanche líquido no pub antes de voltar para entregar a matéria. Os artigos eram considerados às vezes “bons demais para serem checados”. Um editor me ditou uma citação e depois, piscando, disse que tinha certeza de que os meus contatos eram ótimos e que eu encontraria alguém que dissesse aquilo de maneira anônima. Meu deadline acabava em cinco minutos.

O termo “hack” assumiu um significado diferente e sinistro na imprensa britânica desde que o tabloide News of the World, fundado há mais de 150 anos, implodiu. Ao mesmo tempo, redações mais respeitáveis neste país foram sacudidas pelo terremoto de acusações de plágio contra Johann Hari, um colunista liberal, menino prodígio do The Independent, que tinha o hábito de incluir citações de livros e outras entrevistas para florear seus artigos.

Apesar de a imprensa americana ter tido vergonhas parecidas, é fato que os artigos americanos são em geral mais precisos e mais bem pesquisados que os britânicos; o Wall Street Journal não estava errado quando arriscou que o jornalismo britânico “tinha a merecida reputação global de matérias com uma só fonte ou citações de fontes anônimas que podem ou não ser verdadeiras”. Mas as matérias na imprensa americana também tendem a ser tediosas, longas e acadêmicas, escritas mais em benefício de editores rabugentos e conselhos do Pulitzer que dos leitores. Há uma razão para um país com uma população que é um quinto da americana comprar milhões de jornais a mais por semana.

 

À parte todos os seus defeitos, os tabloides britânicos são mais vibrantes, divertidos, opinativos e competitivos que os jornais americanos. Nós cobrimos mais histórias, incomodamos mais pessoas e temos maior impacto político. Profissionais de jornais standard como eu veem-se como parte da mesma gangue dos jornalistas dos tabloides, e há uma movimentação entre os tabloides e os jornais mais sérios, pois as habilidades pragmáticas estão em demanda por editores de ambos. Se não estivessem ocupados abanando suas cabeças para nós e citando o pomposo Código do Jornalista, os ranhetas afetados da mídia americana poderiam aprender umas coisinhas.

Nenhum jornalista britânico nega que as ações do News of the World – mais conhecido no nosso lado do Atlântico como o News of the Screws (Notícias dos Pilantras, em tradução livre) – eram uma perversão lamentável do jornalismo. Mas o maior escândalo são as ações dos políticos que buscaram o apoio da News International e da polícia que não investigou (e foi alegadamente paga para não fazê-lo) os crimes, enquanto empregavam os executivos do jornal ligados a esses delitos.

 

O que políticos evitam tratar são os acordos de décadas com o império de Murdoch. Quando Brown se levantou na Câmara dos Comuns e expressou sua raiva com a invasão de sua privacidade pelo Sun – que publicou notícias sobre a fibrose cística de seu bebê há quatro anos –, ele parecia uma figura simpática. O que não mencionou foi que ele e sua mulher receberam posteriormente a então executiva da News International, Rebekah Brooks, no número 10 da Downing Street para uma infame "festa do pijama", e compareceram ao casamento dela em 2009.

 

A verdadeira razão para a ira de Brown foi que, apesar de todos seus rapapés para a News International, Murdoch decidiu abandonar o Partido Trabalhista de Brown e apoiar Cameron e os conservadores na eleição passada. O inferno não conhece fúria maior que a de um político desdenhado. Os tories (conservadores) também estavam até o pescoço na coisa: numa decisão que ainda pode forçar sua renúncia, Cameron escolheu Andy Coulson, ex-editor-chefe do News of the World implicado nas acusações de grampo, para seu secretário de imprensa. Ter um editor de tabloide de Murdoch em casa deu a Cameron uma linha direta com “o povo”.

 

Para a imprensa britânica, a revelação mais danosa desse escândalo é o grau com que mostra que jornalistas, ou, para ser mais preciso, executivos da News International, invadiram os santuários do establishment britânico. Uma raça que sempre se orgulhou de ser formada por intrusos encardidos foi admitida e usou ao máximo a oportunidade.

Nos EUA, os jornalistas já estão dentro: basta ver as conversas privadas de Obama com editorialistas, os tipos do Washington Post e da revista Time que transitam sem esforço entre secretários de imprensa da Casa Branca e o consenso aconchegante do complexo político-jornalístico-industrial de Washington. Com frequência, editores americanos, preocupados com seus futuros convites para coquetéis, prefeririam que seus repórteres acariciassem em vez de cutucar as autoridades. Os excessos do jornalismo britânico podem ser condenados, mas a mídia americana poderia usar alguns deles. O jornalismo britânico não engoliria a crédula cobertura americana do governo Bush que caracterizou os antecedentes da guerra no Iraque.

São os políticos que usaram cada oportunidade para se congratular com Murdoch e seus acólitos que agora pedem o desmantelamento da News International e cobram responsabilidade da mídia como um todo. Seu objetivo? Um sistema de regulamentação, provavelmente chefiado por um órgão “independente” nomeado por um novo governo, que produza uma imprensa neutra parecida com o modelo americano. Tendo visitado Washington e visto repórteres se levantarem quando o presidente americano entra na sala (jornalistas britânicos não fazem uma coisa dessas com o primeiro-ministro) e fazerem respeitosamente perguntas sérias de três partes, não espanta que nossos políticos gostariam de mais do mesmo.

O perigo da atmosfera febril na Grã-Bretanha, onde a indignação justificada com as táticas de tabloides está levando a uma apressada inquisição pública, com dez inquéritos ou investigações oficiais em curso na última contagem, é que aquilo que Tony Blair chamou um dia de “besta feroz” da mídia possa ser domado e amordaçado. O pior desfecho de todos seria, talvez, a besta ser transformada num cachorrinho dócil ao estilo americano.

 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E CELSO PACIORNIK

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