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Fôlego novo

Teólogo vê nos ‘gestos simbólicos fortes’ do papa a intenção de reformar a Igreja e um alento para a Teologia da Libertação

Marcelo Beraba,

20 de julho de 2013 | 15h54

A eleição de Jorge Mario Bergoglio para papa reanimou a Teologia da Libertação e um de seus principais canais de ação evangelizadora, as Comunidades Eclesiais de Base. Reprimidas pelo Vaticano durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI sob a acusação de se inspirarem na teoria marxista, elas "respiram" melhor desde março, com o papa Francisco.

Gestada a partir do Concílio Vaticano II (1961–65) na América Latina e difundida ao longo da década de 1970, a Teologia da Libertação (TdL) ficou marcada pela ênfase que deu ao combate à miséria e à exclusão social e à resistência aos regimes ditatoriais que marcaram o período. A partir da década de 1980, no entanto, passou a ser duramente criticada pelo Vaticano, e seus principais teólogos punidos. No Brasil, o ex-frade Leonardo Boff, um de seus principais teóricos, foi condenado em 1984 pela Congregação da Doutrina da Fé, antigo tribunal da Inquisição, então presidido pelo cardeal Joseph Ratzinger.

Para o padre Agenor Brighenti, teólogo e professor da PUC-PR, Bergoglio não aderiu à Teologia da Libertação, mas nunca se opôs a ela. Na sua opinião, a corrente voltou a tomar fôlego no final de 2007, após a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida (SP). E Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, teve papel fundamental.

Bergoglio presidiu a comissão de redação do documento de Aparecida. Brighenti estava lá, como teólogo da CNBB. Um de seus livros, Aparecida em Resumo (Paulinas), compara o documento original redigido por Bergoglio com o final aprovado por Roma depois de 250 alterações. Ligado à Teologia da Libertação, Brighenti afirma categoricamente: o texto apresentado por Bergoglio era "muito mais arrojado".

"Quando a gente escuta o papa Francisco, percebe-se que tem uma visão de Igreja que não seja autorreferenciada. Essa é a tese de fundo de Aparecida: uma Igreja missionária." Brighenti tem dúvida, no entanto, se Francisco terá forças para impor as reformas necessárias à renovação da Igreja. "Sozinho, será impossível."

A reabilitação

"A eleição de Jorge Mario Bergoglio deu novo fôlego à Teologia da Libertação. Ela está de novo em praça pública. Como existe a questão dos pobres, temos de nos preocupar com isso. As Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação estão respirando melhor nestes últimos meses. É um novo momento. Na verdade, este momento já havia começado depois da reunião da Conferência do Episcopado Latino-Americana, em Aparecida, em 2007. Não se esperava que oficialmente houvesse um posicionamento sobre a Teologia da Libertação. Mas, depois de Aparecida, as CEBs e a TdL se reabilitaram, se sentiram contempladas, animadas e reanimadas.

O dedo de Bergoglio em Aparecida

"O papa Francisco segue na perspectiva de uma igreja que vá para as periferias geográficas e existenciais, que não seja autorreferenciada. Essa é a tese de fundo de Aparecida: uma Igreja missionária. Outro aspecto importante é essa Igreja samaritana, uma Igreja pobre, como ele tem insistido ultimamente – é uma marca de Aparecida também. A perspectiva mais latino-americana de uma Igreja comprometida com a sociedade, com o mundo da política e da economia para contribuir com uma sociedade inclusiva de todos, como ele tem se pronunciado, também é uma marca de Aparecida.

O dedo da Cúria

"Mas o fato mais importante, em relação ao papel do então cardeal Bergoglio em Aparecida, foi que presidiu a Comissão de Redação do Documento Final da V Conferência, que é muito mais rico do que o oficial aprovado pela Cúria Romana. Em Roma, o original sofreu 250 mudanças. O primeiro documento era muito mais arrojado, muito mais consequente e talvez estampasse melhor a marca de Bergoglio.

A posição do papa

"Bergoglio não aderiu, mas não se opôs à Teologia da Libertação. Durante a Conferência de Aparecida, foi o único bispo estrangeiro a fazer-se presente na missa das CEBs, num domingo de manhã, na Basílica. Bergoglio não é um protagonista, mas tampouco vai cercear esse caminho. Tanto que já tirou da gaveta o processo de canonização de d. Romero, bispo mártir de El Salvador, símbolo da Teologia da Libertação. D. Romero morreu em 1980 e o processo estava parado.

A crise da democracia

"O documento final de Aparecida, que o papa deu de presente a Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, não chega a questões de Estado. Mas ali está uma proposta de evangelização transformadora. Talvez aí esteja um recado indireto. E o documento fala que existe uma crise da democracia, uma crise das instituições públicas, um descrédito dos três Poderes.

Socialismo e capitalismo

"A Igreja não condena o marxismo, o socialismo, de maneira diferenciada do capitalismo. São dois sistemas sobre os quais a Igreja já se pronunciou a respeito porque não colocam no centro a pessoa humana. Claro que a Igreja é mais condescendente com o capitalismo. Mas o documento de Aparecida é bastante duro em relação ao capitalismo, à exclusão.

Os conservadores

"Certamente ele vai dar outra tônica a esses eventos de massa, que está herdando dos predecessores. Tanto que setores conservadores eram os que participavam mais ativamente das Jornadas anteriores. Pelo fato de ser ele o novo papa, vejo que o número de participantes, sobretudo estrangeiros, vai diminuir. Os segmentos conservadores e mais tradicionalistas que seguiam João Paulo II e Bento XVI virão certamente em menor escala. A juventude mais tradicionalista não se sente contemplada com o novo papa, está reticente. Esses segmentos mais ligados à Cúria e aos papas João Paulo II e Bento XVI agora começam a tomar distância. É natural.

Gestos transcendentes

"Os gestos de Francisco são transcendentes. Logo que se elegeu, se inclinou diante do povo, não usa o carro oficial, não se deixa chamar de papa, mas bispo de Roma, fez questão de pagar o hotel onde se hospedou em Roma antes de ser eleito papa, não mora no apartamento do papa. E no Rio ele vai rezar o Angelus em cima de uma laje na favela. Vai ser um recado para essa Igreja da pompa, do luxo, dos grandes templos.

Esperança e dúvida

"Tenho muita esperança [no pontificado de Francisco]. Afinal, temos um papa latino-americano, jesuíta, sensível à causa dos pobres, que é a causa de Deus e da Igreja. Até agora fez-nos chegar gestos simbólicos fortes, proféticos, de alguém que sabe muito bem de que reformas a Igreja precisa e de que iniciativas a sociedade carece, para serem espaços inclusivos de todos. Pesa, entretanto, a dúvida se terá a força necessária para levar as reformas da instituição à prática. Sozinho, será impossível. Ele já conta com o apoio popular. Mas precisará dividir a tarefa com as Conferências Episcopais, o Sínodo dos Bispos e outros organismos representativos do Povo de Deus."

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