Carlo Allegri/Reuters
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Lee Siegel
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Fome de anonimato

Nos EUA de hoje, a única coisa que celebridades podem fazer para recuperar glamour e autoridade perdidos é se tornarem imediatamente anônimos

Lee Siegel,

08 Março 2014 | 16h05

A obsessão americana por celebridades, por indigna que possa ser, sempre pareceu ter uma certa dignidade no âmago. Ser famoso cumpria a promessa americana de ir de lugar nenhum a algum lugar. O fato de a maior parte das celebridades serem atores reforçava o significado americano simbólico de fama. Nos Estados Unidos - assim rezava a mitologia nacional - não era preciso ter pedigree, riqueza ou conexões para ascender de origens sociais humildes. Bastava a capacidade de se reinventar explorando os próprios dons inatos. Como um ator.

Ao falar de nossas celebridades, conseguíamos nos tranquilizar sobre a promessa e as possibilidades da vida americana. A Europa teve a grandiosa Era do Romantismo. Nós tínhamos Marilyns, Sinatras, Brandos, nascidos em berço humilde. Quando cristalizamos uma época num indivíduo, oferecemos às pessoas a esperança de transcender seu tempo. Talvez seja por isso que a cultura pop americana sempre exerceu um enorme fascínio em todo o mundo.

Ultimamente, porém, com a mobilidade social, a fama americana parece estar capengando. Assim como em toda nossa história um grupo social após outro ascendeu e lutou contra as restrições que queriam segurá-lo, as celebridades estão se rebelando contra sua celebridade.

Primeiro, tivemos Shia LaBoeuf, que respondeu uivando de indignação por ter sido apanhado plagiando um conto de alguém num filme que havia feito. Ele compareceu à pré-estreia de seu mais recente filme, Ninfomaníaca, com um saco de papel enfiado na cabeça com a inscrição "Já não sou mais famoso". Depois disso, fez uma performance numa galeria de arte em Los Angeles, chamada "#IAmSorry", na qual ficava sentado encoberto pelo mesmo tipo de saco, olhando para visitantes pelos buracos para os olhos.

Não muito depois dos atos de penitência encenados por LaBoeuf, James Franco escreveu um texto para o New York Times simpatizando com o que descreveu como o drama de LaBoeuf, "em que um jovem numa profissão muito exposta tenta proteger sua persona pública". Franco queixou-se de que, "como atores de cinema tipicamente experimentam uma grande dose de fama, nossas personas podem se sentir à mercê de forças que vão muito além de nosso controle".

Nascia uma tendência. Semanas depois, vieram o que historiadores futuros considerarão o ponto de virada da celebridade, quando a fama nos EUA deixou de ser a aspiração fervorosa, secreta, de crianças em fazendas, cidades, subúrbios e cidadezinhas de todo o país para ser o que os próprios famosos consideram um tormento miserável.

Na revista New York, Alec Baldwin publicou um digressivo desabafo de 5 mil palavras cujo propósito imediato era defender-se de acusações de que havia chamado um paparazzo de "veado", acusações que provocaram uma fúria viral que lhe custou seu talk show na MSNBC. Baldwin negou veementemente o uso da palavra. Mas lamentou também o fim de um tempo em que, mesmo numa cidade como Nova York, a privacidade, até de atores famosos, era respeitada. "Hoje", escreveu, "vivemos numa arena digital, uma espécie de Coliseu romano, com os polegares levantados ou abaixados... Agora eu abomino a mídia de uma maneira que não considerava possível." Ele terminou prometendo se afastar dos holofotes da mídia. "É adeus à vida pública", disse.

(Um toque irônico, sombrio, foi que, enquanto Baldwin declarava que pretendia ir para Los Angeles porque lá "vive-se atrás de um portão, entra-se num carro, a interação com o público é mínima", Philip Seymour Hoffmann teria estipulado em seu testamento que seus filhos não vivessem em nenhum lugar perto de Hollywood.)

Embora o arrazoado de Baldwin tivesse oscilado entre genuína indignação e alfinetadas mesquinhas em seus críticos e ex-patrões típicas da arena digital que condenou, ele tinha alguma razão. A natureza da fama mudou porque a cultura democrática mudou. Com a ascensão da era digital, a fama cedeu boa parte de seu glamour ao anonimato.

Uma antiga distinção dizia que a fama se baseava em realização, ao passo que celebridade era simplesmente um fenômeno da fama pela fama. Hoje, a fama pela fama não só é uma virtude cardeal - as Kardashians, Paris Hilton, etc. - como o anonimato adquiriu um caráter poderoso. O que parece prender a atenção de um público tão grande a histórias atuais como as das Kardashians é que elas são simultaneamente famosas e anônimas.

Kim e seu clã estão em toda parte e em cada meio de comunicação; mas se você perguntar a alguém por que elas são tão onipresentes, tão comentadas, provavelmente receberá um olhar de espanto, como se houvesse perguntado de pessoas sobre as quais não se sabe nada. Essa é a questão. As Kardashians, e todos os produtos de reality shows que não cessam de proliferar, são famosos sobretudo por não serem famosos. Sua absoluta obscuridade, a falta de qualquer tipo de conexão entre suas realizações e sua fama é que lhes dá poder sobre a atenção nacional. Em política, pessoas comuns podem ser invisíveis e derrotadas, mas na cultura popular pessoas comuns podem elevar sua vulgaridade aos píncaros da proeminência pública.

Transparência e acesso, as duas senhas de nosso momento, são os motores gêmeos que movem esse novo tipo de anonimato famoso. Gostamos dos participantes da reality TV porque eles nos permitem olhar diretamente para seus mais sórdidos defeitos e falhas. E a mídia social nos permite manifestar no instante mesmo em que tomamos consciência de suas deficiências e transgressões. Às vezes, os temas de nossa ira ou desprezo acabarão sendo retuitados. Como no caso de Baldwin, eles podem até nos prejudicar. É o mais próximo que poderemos possivelmente chegar da democracia participativa real.

Quando celebridades como Baldwin pisam na bola, a cultura é impiedosa. Agora, se Baldwin chamou alguém de "veado", mesmo um jornalista ou fotógrafo abelhudo, ele mereceu todo o opróbrio público que recebeu. Mas ninguém além do paparazzo alegou ter ouvido a palavra sair de sua boca, e há muitos anos que Baldwin vem contribuindo com tempo e dinheiro com organizações gays.

Como qualquer pessoa acusada de um ato ofensivo, Baldwin mereceria ser considerado inocente antes de ser universalmente massacrado por ser culpado.

Em vez disso, foi espremido pela indignação moral, como se a pessoa que ele realmente era finalmente surgiria sob toda aquela pressão. Somos todos Edward Snowdens agora. A simples autoridade, privilégio e poder nos incitam a desprezar, a tentar expor e humilhar. As celebridades, como a maioria das pessoas visivelmente privilegiadas e poderosas da sociedade, recebem ainda mais que os políticos o principal impacto da indignação.

Essa nova atmosfera está muito longe do velho estilo de celebridade. Franco cita Brando como um ator que se rebelou contra o público ao desafiar "o sistema de controle do estúdio sobre sua imagem, permitir que seu peso flutuasse e escolhendo papéis que eram considerados menores...". Isso é bobagem. Brando desafiou as estruturas econômicas do estúdio ao ser o primeiro ator a insistir numa porcentagem sobre o faturamento bruto de um filme; ele abominava o estúdio por lhe dar papéis que considerava aquém do seu valor; e engordou porque estava pessoalmente infeliz. Com o público, Brando estava em termos cordiais, ainda que evasivos e jocosos.

Aliás, Al Pacino e Joaquin Phoenix - o ator mais nas interessante e dotado de sua geração -, ambos herdeiros de Brando, são os dois atores que compreendem a natureza cambiante da celebridade. No documentário Looking for Richard, Pacino se apresenta como um megalomaníaco insensível. No pseudodocumentário I’m Still Here, Phoenix, de uma geração posterior, vai muito além, revelando-se um quase sociopata, viciado em sexo, monstruoso e abusivo.

Ambos se apresentaram como quem compartilha o desprezo público por celebridades, quase como uma imunização contra esse desprezo. Ambos buscaram fazer uma distinção entre sua natureza como artistas e seu fenômeno como celebridades. Foi também isso que Baldwin quis dizer quando escreveu que "comecei como ator, atividade em que você procura se compreender usando as palavras de grandes escritores e colaborando com outras pessoas criativas.

Depois enveredei pelo show business, onde se procura apenas a aprovação de um público, quer se mereça ou não. Acho que agora quero voltar a ser ator".

A revolta das celebridades pode parecer um fenômeno frívolo, mas ela reflete uma realidade mais profunda. Na medida em que a classe média americana encolheu e as pessoas ficaram presas num degrau da escada social, a fama, com seus direitos rarefeitos, não é mais um símbolo da mobilidade social americana.

Ela se tornou o próprio retrato da desigualdade americana. O poder e autoridade de celebridades, que um dia inspirou admiração universal, hoje é mais um exemplo da desconsideração, indiferença e horrível autocomplacência do "1%".

Como sempre, a maioria de Hollywood não sabe como responder. Tudo que eles puderam pensar para acalmar a moribunda e desiludida classe média foi encenar uma entrega de pizza durante a cerimônia do Oscar no domingo. O entregador recebeu uma gorjeta de US$ 1.000, que, sob a aparência de ser generosa, traía uma indiferença com a renda das pessoas comuns que fizeram Maria Antonieta parecer Madre Teresa.

Na América de hoje, a única coisa que celebridades podem fazer para recuperar seu glamour e autoridade é se tornarem imediatamente obscuras.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIKL

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