Força e leveza em forma de poesia

'Melhor do que parente longe é o calor do vizinho', ensina Yoshiko Hanashiro, de 100 anos, 80 no Brasil

Márcia Placa,

24 de maio de 2008 | 19h04

Olhar para Yoshiko Hanashiro é como estar diante de uma fortaleza, tal o vigor que emana de seu corpo franzino. Ao mesmo tempo, ficar ao seu lado traz inexplicável leveza. Talvez sugerida pelas canções que entremeiam nossa conversa.  Veja também:Para celebrar o Centenário da Imigração Japonesa Uma apaixonante vontade de viver Em um lugar longínquo, a chance de ser feliz Voltar ao Japão? Nem a passeio No Brasil, para fazer a vida e fugir da guerra  Especial: Álbum da imigração Especial: A viagem inaugural  E é com uma música que conta sua vida no Brasil. A poesia, em japonês, foi feita por ela e diz: "Nasci no interior de Okinawa, eu era como um lírio branco. Para depender só de um marido, para este distante Brasil eu vim. País extenso com gente de coração muito bom. Assim, aprendi que melhor do que parente longe é o calor do vizinho, ainda que desconhecido."Ela afirma que o Centenário da Imigração deve ser comemorado. "Estamos bem no Brasil, temos de fazer festa mesmo." Para as futuras gerações, deixa um recado: "Que cada um saiba ficar de pé sozinho, sem resmungar." Sábias palavras vindas de uma mulher que deixou sua terra natal e se manteve de pé por todos estes anos. Nascida em Nagô-Shi, Okinawa, a professora Yoshiko se casou, aos 19 anos, com Seian Hanashiro, que já estava no Brasil. A família viu a união com bons olhos: Seian descendia da casta Shikozu, a mais culta dos samurais. Era diplomado e ministrava aulas de japonês para os filhos de imigrantes em Itariri, no Interior. Yoshiko chegou com 20 anos, preparada para trabalhar. "Meu marido tinha me avisado para vir com esse espírito."Ela não se fez de rogada. Abriu uma pensão e criou a Associação Feminina de Itariri, que desenvolvia atividades filantrópicas e sociais. "Ela é uma pessoa determinada", conta a nora, Lila Hanashiro. "Também é muito alegre."A família é sua grande paixão. Ela fica triste quando não consegue tomar o café com todos à sua volta. Yoshiko teve 11 filhos - 8 estão vivos - e sua alegria se completa com 20 netos e 9 bisnetos.O período mais sofrido na vida dela foi quando teve de ficar longe dos filhos. Em 1939, Yoshiko e o marido decidiram ir ao Japão para que os seis filhos que tinham na época pudessem estudar. Quando voltaram ao Brasil, trouxeram apenas o mais novo. Veio a guerra e o casal só tornou a ver os outros dez anos depois. Também nessa época, quiseram prender Seian por espionagem. Ela defendeu o marido."Não pensava em chegar aos 100", diz Yoshiko, que fez aniversário em abril. "Parece um sonho."

Mais conteúdo sobre:
Imigração japonesa

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.