Forças sírias bombardeiam Damasco; combates crescem em Aleppo

Forças sírias bombardearam partes de Damasco com helicópteros de combate neste domingo, segundo testemunhas, retomando territórios dos rebeldes uma semana após os combatentes iniciarem o que chamaram de batalha final pela capital.

SULEIMAN AL-KHALIDI E JONATHON BURCH, Reuters

22 de julho de 2012 | 17h19

Membros de uma divisão do exército sírio sob o comando do irmão do presidente Bashar al-Assad executaram sumariamente vários jovens, disseram testemunhas e ativistas da oposição.

Em escalada adicional do conflito envolvendo oponentes do presidente Assad e que se transformou em guerra civil, os combates também se espalharam ao redor da sede do principal órgão de inteligência na maior cidade da Síria, Aleppo --principal centro comercial e industrial do país-- e em Deir al-Zor, no rio Eufrates, a maior cidade do leste.

As forças sírias retomaram o controle de uma das duas passagens tomadas por rebeldes na fronteira com o Iraque, disseram autoridades iraquianas, mas os rebeldes disseram ter capturado uma terceira passagem na fronteira com a Turquia, Bab al-Salam, ao norte de Aleppo.

"Tomar as passagens fronteiriças não tem importância estratégica, mas tem um impacto psicológico porque desmoraliza a força de Assad", disse um desertor-sênior do exército sírio na Turquia, o comandante de brigada Faiz Amr, à Reuters por telefone.

“"É um show de progresso para os revolucionários, apesar do poder de fogo superior das tropas de Assad".

Os rebeldes disseram que perderam 12 homens e que 40 ficaram feridos durante o cerco de 24 dias que montaram para tomar o posto de fronteira de Bab al-Salam. O oficial do comando rebelde na área, Abu Omar, disse que tomou a passagem no domingo sem luta.

"Havia dois veículos blindados no portão e eles fugiram. Essa é uma zona segura para nós e não esperamos que o exército volte e ataque", disse Omar. "Oitenta por cento da área aqui está nas mãos dos rebeldes de qualquer maneira".

Os bombardeios sobre Damasco e Deir al-Zor foram os mais duros até agora e mostraram a determinação de Assad de vingar uma bomba na quarta-feira que matou quatro membros de seu alto comando.

Foi o golpe mais sério em 16 meses de levante que se transformou em uma revolta armada contra as quatro décadas de governo Assad.

Rebeldes foram expulsos de Mezzeh, o bairro diplomático de Damasco, disseram moradores e ativistas da oposição, e mais de mil soldados do governo e milicianos aliados foram para a área, apoiados por veículos blindados, tanques e buldôzeres.

Três pessoas morreram e outras 50, a maioria civis, ficaram feridas no bombardeio no início da manhã, disse Tabu, um morador de Mezzeh. "O bairro está cercado e os feridos estão sem cuidados médicos".

A região de Barzeh, uma das três áreas no norte atingidas por artilharia de helicóptero, foi invadida por tropas da Quarta Divisão comandadas pelo irmão caçula de Assad, Maher al-Assad, de 41 anos. Ele é amplamente visto como a força que mantém quatro décadas de governo da minoria alauíta da família Assad.

VULCÃO DE DAMASCO

Seu papel se tornou mais crucial, já que a defesa de Assad e os ministros de inteligência, um alto general e seu poderoso cunhado foram mortos por uma bomba na quarta-feira, como parte do "Vulcão de Damasco" feito por rebeldes que buscam transformar a situação em uma revolta inspirada pelos levantes da Primavera Árabe na Tunísia, Líbia e Egito.

Assad não falou em público desde o bombardeio. Diplomatas e fontes da oposição disseram que as forças do governo estavam se focando em centros estratégicos, com um diplomata ocidental comparando Assad a um médico "abandonando os membros do paciente para salvar os órgãos".

Assad permanece em Damasco e mantém a lealdade de suas forças armadas, disse o exército israelense, depois que perguntas foram feitas sobre o paradeiro do líder sírio. A televisão estatal síria citou uma fonte da mídia negando que helicópteros tenham disparado na capital. “A situação em Damasco é normal, mas as forças de segurança estão perseguindo os terroristas remanescentes em algumas ruas", dizia.

As forças de Assad alvejaram bolsões de rebeldes levemente armados que se moviam pelas ruas a pé, atacando instalações de segurança e bloqueios de estradas.

Outras fontes rebeldes e da oposição disseram que combatentes da guerrilha na capital podem perder as linhas de suprimento para permanecer ali por muito tempo e podem ter que fazer "retiradas estratégicas".

Moradores disseram que o bombardeio foi tão intenso no anoitecer que não conseguiram discernir a tradicional explosão de canhão que marca o fim do jejum para o mês sagrado do Ramada.

No domingo, ativistas da oposição relataram combates em Jdeidet Artouz, um subúrbio a sudoeste de Damasco, a 30 quilômetros das Colinas de Golã, capturadas por Israel em 1967. Tanques entraram no subúrbio durante a manhã, disseram.

Os outros vizinhos de Síria e Israel temem que o conflito possa se espalhar por uma região já instável.

O exército iraquiano enviou guardas e oficiais de fronteira adicionais no domingo para a passagem Qaim-Albu Kamal, que faz fronteira com a Síria, capturada por rebeldes na quinta-feira. A fronteira foi fechada pelo exército iraquiano na sexta-feira, temendo uma disseminação da violência, e o governo do Iraque disse que não pode ajudar os sírios que estão fugindo da violência.

O Observatório Sírio para Direitos Humanos, um grupo de oposição que monitora a violência no país, informou que 1.261 pessoas foram mortas na Síria desde domingo passado, quando aumentaram os combates em Damasco, incluindo 299 membros das forças de Assad, tornando esse período a semana mais sangrenta da revolta que já levou 18 mil vidas.

Um total de 180 pessoas, incluindo 48 soldados, foram mortos na Síria no sábado. Muitos deles morreram na província de Homs, o epicentro da insurreição.

A maioria das lojas em Damasco foram fechadas e havia pouco tráfego-- embora mais do que nos últimos dias. Alguns postos policiais, abandonados no início da semana, foram colocados em operação novamente.

Muitos postos de gasolina foram fechados, depois de ficarem sem combustível, e aqueles que estavam abertos tinham filas enormes de carros esperando para encher o tanque. Moradores relataram longas filas em padarias.

FUGA DE ALEPPO

Uma repressão sangrenta sobre o que começou como uma revolta pacífica vem se tornando cada vez mais um conflito armado entre o establishment dominado pela minoria alauíta de Assad, um ramo do Islã xiita, e rebeldes da maioria sunita.

Ativistas da oposição em Aleppo disseram que centenas de famílias estavam fugindo de áreas residenciais no sábado depois que o exército invadiu o bairro Saladin, que ficou nas mãos dos rebeldes por dois dias. Combates também foram reportados na área altamente povoada e pobre de al-Sakhour.

"“Pela primeira vez sentimos que Aleppo se transformou em uma zona de batalha", disse uma mulher que não quis se identificar, por telefone, da cidade.

Na fronteira entre Síria e Iraque, autoridades da segurança e da fronteira iraquianas disseram que as forças sírias tinham retomado o controle sobre a passagem de Yarubiya do lado sírio da fronteira, brevemente tomado pelos rebeldes no sábado.

A onda de violência aprisionou milhões de sírios e transformou seções de Damasco em áreas fantasma, enviando dezenas de milhares de refugiados para o vizinho Líbano.

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