Fornada mineira

Renato do Biscoito, Zé bom de prosa, Maria Preta, João do Rio Abaixo, Neguinho... Nomes estranhos? E as iguarias então - cubu, rosca de almôncio, suco de inhame? No deliciosamente mineiro Festival da Quitanda de Congonhas tem de um quase tudo

Giovanna Tucci/AE,

21 Maio 2009 | 08h42

Mineiro arreda o pé da mais digestiva briga, mas adora uma confusão na cozinha. Potes melados de compotas de frutas na estante, tachos pedindo para ser rapados. Só mesmo um mineiro poderia ter tomado emprestada a palavra quitanda, denominação de pequenos comércios, para agrupar nela as comidinhas que vão bem com seu açucarado café. Quitandas, em Minas Gerais, são as chamadas comidas ligeiras: broas, biscoitos, bolos, roscas... Ao pé da letra, o termo só vale para o que for doce e levar fubá e farinha, excluindo pães. Mas, na prática, há espaço para o pão de queijo e a goiabada. Isso, em todos os dias do ano, à exceção do dia do concurso do Festival da Quitanda, em Congonhas. Veja também: Dicionário da quitanda 'Quitandas' para a prateleira Elas são boas de farinha e fubá: Maria do Carmo Santos Costa: 'Cubu é forte e sustenta' As Tânias de Ouro: Bolos que acabam rapidinho Florips Oliveira Flores Pinto: Minifábrica no sítio Quitutes: Receita de cubu Receita de bolo de mandioca Ali, há nove anos, no terceiro domingo de maio, as quitandas saem dos fornos e, sob a tutela dos 12 profetas do adro da Basílica do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, ocupam a romaria. É o Festival da Quitanda de Congonhas. A reunião de quitandeiras locais e dos arredores agita a cidade sede do impressionante conjunto de Aleijadinho, como aconteceu no último domingo, 17, com a presença de 15 mil pessoas. Neste ano, sessenta e três quitandeiras de 12 cidades, incluindo a cidade anfitriã, se inscreveram no festival, que premia em três categorias: Prata da Casa (Congonhas), Regional e Comércio especializado. A variedade é imensa. Nas barracas que circundam o interior da romaria havia quitandeiras que vivem de suas gulodices e as que as preparam só para a festa, caso da criativa Elizabeth Silva, a Beth. Estavam lá associações como a Casa da Amizade das mulheres de rotarianos e estabelecimentos do porte da padaria do Jaci, que faz o rocambole mais famoso de Lagoa Dourada. Compareceu, é óbvio, o Renato do Biscoito, figura carimbada da cidade vendedor de biscoitos de polvilho que estudou francês para oferecer "Monsieur, cachaçá?", com posse legal de idioma. "É um resgate da tradicional cozinha mineira, mas todo ano aparecem coisas novas", conta Maria Inês Moreira, presidente da comissão organizadora do festival, promovido pela prefeitura de Congonhas. "Estou curiosa com a rosca de almônico do seu João de S. Gonçalo do Rio Abaixo. Estranhei o nome da rosca e liguei para ele: ‘Seu João, é sal amoníaco que o senhor quis dizer?’ Ele disse que é almônico mesmo, um tipo de farinha comum por lá." É um festival boa praça. Casais de namorados se abraçavam ao som de Pereira da Viola, uma das atrações musicais, enquanto famílias inteiras cobiçavam as delícias acomodadas nas esmeradas toalhinhas floridas - a vovó comparando as quitandas da festa com as dela e as crianças devorando espetinhos. Afinal, é o festival da quitanda, mas também um ardil gastronômico, uma desculpa para, sem prudência e sem guardanapos, celebrar a cozinha mineira. Por isso a interminável fila para comer pastel de angu e o sucesso do suco de inhame com limão da Elizete Cordeiro. São tradicionalmente montados cenários bucólicos na romaria, tarefa de Luciano de Bastos, o Neguito, capaz de empurrar um trator com a força de 40 homens. Ele pediu emprestado às fazendas da redondeza antigas maquinas, como um grande pilão quadrado e uma estocadeira, além de correr atrás de materiais para construir em tempo recorde um engenho onde a cana é moída e a rapadura é feita (e distribuída) na hora. Mas a maior preciosidade que Neguito trouxe foi o bom de prosa José Afonso Pinto, o Zé. Dono de uma terra com gervão e banana roxa, veio ao festival mostrar aos visitantes como se faz um balaio. Vendeu os quatro que trouxe nas primeiras horas. E lembrou que quando era garoto e a mãe levava à mesa quitandas recém tiradas do forno, ele as molhava. "Quitanda quente? Não pode não, dá azia." Maria Preta, comandante do forno de onde saíam os cubus oferecidos ao público, pareceu concordar. Se a cada ano o festival coroa uma quitandeira, é vitalício o reino do cubu, este fenomenal bolinho de fubá e erva-doce enrolado em folha de bananeira. Com o perdão dos mineiros, quente de queimar o dedo.

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