Fórum que junta de banqueiro a ongueiro dá aula de concisão

Análise: Roberto Smeraldi

JORNALISTA, DIRETOR DA OSCIP AMIGOS DA TERRA - AMAZÔNIA BRASILEIRA. PRESIDIU O COMITÊ , INTERNACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL NA ECO-92, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h04

"Descontinuar subsídios aos fósseis, desenvolver tributação verde." Simples assim. As medidas não são trechos da declaração oficial da Rio+20, mas as principais recomendações econômicas escolhidas por cem notáveis e apresentadas hoje aos chefes de governo, em seis minutos. A iniciativa - denominada Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável - partiu do governo brasileiro, em parceria com a ONU: durante um mês, alguns milhares de especialistas votaram sobre cem recomendações e o Grupo dos Cem escolheu 30 entre elas.

A diversidade do grupo sugeria que o consenso, ali, seria mais improvável do que a composição entre diplomatas: junte a representante global dos sindicatos, Sharan Burrow, com Peter Bakker, do conselho que reúne as principais multinacionais; o vice-presidente do Deutsche Bank Caio Koch-Weser com o prêmio Nobel Muhammed Yunus, o banqueiro dos pobres; ex-líderes de países como Noruega (Gro Brundtland) e Moçambique (Luísa Diogo). Entre brasileiros, o presidente da Raízen (joint venture de Cosan e Shell) Vasco Dias com a secretária da Contag Carmen Foro.

Eu relutava diante deum processo que podia resultar em mais um festival da conversa. Mas, em três singelas páginas, está lá o essencial para promover a economia verde, que não consta na bizantina declaração oficial - em linguagem e formato compreensíveis pelo público de jornais e internet.

Podemos questionar porque umas e não outras prioridades, mas esse documento tem foco: permite discordar, defender alternativas para o futuro, ao contrário do oficial, que gasta 49 páginas para mandar a bola de volta para a Assembleia-Geral da ONU decidir aquilo que ela mesma havia pedido à Rio+20 decidir. Quando os Diálogos pedem para internalizar nas contas públicas o dano ambiental ou políticas de compras públicas seletivas ou para tratar florestas à luz do tríplice desafio de conservar, usar e restaurar (com metas), evidenciam aquela que talvez se torne a principal diferença entre Eco-92 e Rio+20. Antes, a distância era entre o que governos negociavam e o que sonhavam ambientalistas visionários. Hoje, os governos parecem em dificuldade para atender aos anseios de ampla parcela do conjunto da sociedade.

Na conferência, a presidente do Brasil confirmou essa defasagem, ao abordar as dimensões econômica, social e ambiental com bordões típicos do século passado: "crescer, incluir e proteger". O recado do documento dos Diálogos sugere atualizar essa visão para algo que poderia se resumir em desenvolver, distribuir e manejar.

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