Foto de família

Um jardim ao fundo.

, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

O pai e a mãe estão abraçados no centro da foto.

Em volta deles, os filhos: Maria Helena, Maria Elizabeth, Maria Alice e Mariozinho.

O casal tinha trinta e poucos anos quando a foto foi tirada, mas ambos aparentam mais de quarenta. Antigamente as pessoas em geral aparentavam mais idade do que tinham.

O pai oferece um sorriso para câmera.

Pelo visto, a mãe ainda não esperava o clique, pois olha para a filha mais nova com atenção. Talvez conferisse se a menina estava suficientemente bonita para o registro.

Maria Helena, a filha mais velha, aparenta uns 13 anos. Tem os olhos baixos, indício da timidez que a acompanharia pelo resto de sua vida. A blusa de mangas compridas e o casaquinho de tricô por cima denunciam que a foto foi tirada no inverno.

Maria Elizabeth faz pose de mocinha, uma mão na cintura, a outra nos cabelos, o queixo erguido. Como a ação não convence muito, o efeito é engraçado: uma criança com modos de adulto.

Maria Alice ri, exibindo orgulhosamente sua banguela. A gravatinha, do mesmo xadrez da saia, está torta. A mãe provavelmente lamentará o desleixo quando perceber o detalhe.

Mariozinho, alheio ao que se passava, foi flagrado dando um adeuzinho para alguém que estava fora de quadro, à sua direita. Pela visível alegria do menino, supõe-se ser alguém de quem ele gostava bastante.

É só examinar a foto com um pouco de atenção e muito se revela.

Junto com aquele instante daquela tarde do dia 12 de julho de 1955, a lente da câmera capturou algo da essência da família. Um ou outro sentimento, traços de personalidade, supostas tendências e intenções.

O retrato esmaecido poderia servir a um daqueles exercícios didáticos de língua estrangeira, em que bastam algumas palavras para descrever a cena: le monsieur est grand, the woman is beatiful, the bow is red, le petit garçon est sourient, etc.

Mas para Mariozinho, que hoje é um senhor de 60 anos e exibe o álbum de retratos para sua netinha Maria Elizabeth (nome escolhido para homenagear a tia-avó já falecida), a foto serve para revirar suas lembranças. O registro evoca espanto. E ele se sente incomodado. É como se a vida tivesse pregado uma peça nas expectativas dos retratados, colocando em seus caminhos muitas dificuldades e acidentes de percurso. Muito mais do que eles poderiam imaginar naquele inverno de 1955. Ou, então, quem sabe, ainda, é como se o tempo fosse apenas carrasco. Mariozinho, ou doutor Mário, ou simplesmente vovô, por um minuto pensa que chega a ser uma maldade se aprisionar assim a inocência das pessoas em relação ao seu futuro. E, mesmo sem querer, desdenha do menino de 5 anos que acenava para seu vizinho André, naquele dia do passado, sem ter ideia do que estava por acontecer dali para frente.

Menino bobo.

Ignorava que a mãe e o pai ainda iam passar por uma separação litigiosa. E que o pai se casaria três vezes de novo. E que a irmã mais velha fosse um dia viver no Canadá. E que a do meio viesse a morrer de morte trágica. E que a mais nova ia ter uma vida meio torta, assim como sua gravata previa. E que ele mesmo ia ser feliz e infeliz muitas vezes, ia brigar com o André em 1967, e, quarenta e quatro anos depois daquele dia em que ele posou com a família no pátio do prédio em que moravam, ia estar ali, com aquele álbum de fotografias sobre uma perna e a netinha sobre a outra, a pensar bobagens, como sempre.

A neta pede que o avô lhe conte alguma história daquelas pessoas.

Vovô Mário observa a foto mais um pouco, faz as pazes com o tempo e fala.

- Não está na cara que era a melhor família do mundo?

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