Andrew Winning/Reuters
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Nova investigação sobre caso Madeleine McCann reacende drama dos pais - vítimas para uns, suspeitos para outros

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2013 | 15h53

Neste Dia das Crianças, Kate McCann, médica inglesa de 45 anos, estava mais uma vez em Portugal. Mas, ao contrário de milhões de pais e mães espalhados pelo mundo, ela não comemorou a data com a filha Madeleine. Quando tinha 3 anos, Maddie desapareceu de um resort português e nunca foi encontrada, viva ou morta. Foi em 3 de maio de 2007.

Ela e o marido, Gerry, também médico, jamais se resignaram e sempre postularam que a criança foi raptada. Para que as buscas não cessassem, apelaram pessoalmente desde ao papa João Paulo II à apresentadora de TV Oprah Winfrey. Sem falar no primeiro-ministro britânico, David Cameron, que no ano passado aceitou um pedido do casal para que as investigações fossem retomadas pela Scotland Yard.

No dia 12 de maio, aniversário da menina, Kate publicou um livro intitulado Madeleine, seguindo as notas de seu diário pessoal. Nele, relata que, comprovado o desaparecimento, temeu imediatamente que a criança houvesse sido vítima de um pedófilo. “As imagens que vi de Maddie, nenhuma pessoa em sã consciência queria tê-las na cabeça”, escreve. As vendas do livro vão para um fundo com o qual os McCanns pagam serviços de detetives particulares.

Agora, o caso Maddie voltou à tona por duas razões bem diferentes. A primeira: na segunda-feira passada, foi tema do respeitado programa da BBC Crimewatch, que se ocupa de crimes não solucionados, em busca de pistas e depoimentos que ajudem a elucidá-los. Dessa vez, a transmissão contou com a colaboração direta e assumida da Scotland Yard. A menina desapareceu quando a família passava férias num complexo turístico na Praia da Luz, região do Algarve, sul de Portugal. Além dela e dos pais, também faziam parte do grupo os irmãos mais novos de Madeleine, os gêmeos Sean e Amelie, e amigos do casal. Naquela noite, os adultos haviam saído para jantar num restaurante no próprio resort, a poucos metros do apartamento onde as crianças ficaram dormindo. Preferiram não confiar os filhos à creche do hotel.

No Crimewatch, a polícia britânica anunciou que a versão conhecida da sequência dos fatos “mudou significativamente”. Foram divulgadas imagens inéditas de um suspeito, retratos falados elaborados com a ajuda de um programa de computador com base em testemunhas que o viram na área da Praia da Luz. Os depoimentos descreveram o homem como branco, entre 20 e 40 anos, cabelo castanho, altura e peso médios. Ele estaria caminhando em direção à praia com uma menina nos braços.

De acordo com o inspetor Andy Redwood, o policial da Scotland Yard que comanda a operação, “encontrar esse homem agora é vital para nós”. Depois da transmissão do programa, o editor de Crimewatch, Joe Mather, informou que mais de 900 pessoas entraram em contato com a polícia para fornecer informações. Antes que o dia acabasse, tinham sido recebidos 730 ligações telefônicas e 212 e-mails.

Mas aquelas não eram as únicas novidades. Crimewatch apresentou uma nova cronologia dos acontecimentos da noite de 3 de maio de 2007. Às 20h30, os pais de Maddie saíram para jantar. Às 22h, a criança foi dada como desaparecida. “Ao sermos autorizados a trabalhar com o programa para fazer a reconstrução mais detalhada até agora, pudemos destacar pontos muito específicos”, explica o inspetor Redwood. A reconstituição tem 25 minutos de duração e realça os eventos que precederam e rodearam o desaparecimento de Madeleine.

A conclusão é de que o crime foi cuidadosamente planejado. Apelos por novas informações foram feitos também na Holanda e Alemanha, país de origem da maioria dos turistas hospedados na data no resort Ocean Club. Crimewatch apresentou ainda uma entrevista ao vivo com os pais de Maddie. As datas mais difíceis? “O aniversário dela, claro, mas todas as festas familiares são uma faca de dois gumes. Temos de pensar nos gêmeos, mas não conseguimos deixar de pensar nela”, disse Kate. “Claro que nos sentimos culpados por a termos deixado sozinha no quarto. Mas isso não vai trazê-la de volta”, desabafou Gerry. Desaparecida aos 3 anos de idade, se estiver viva Madeleine hoje terá passado mais tempo sem os pais que com eles. Em abril de 2012, a polícia de Londres divulgou uma foto gerada por computador com a aparência atual da menina.

Outro drama acaba de levar novamente Kate e Gerry ao país onde a filha desapareceu – pela primeira vez desde aqueles dias fatídicos. Em setembro, começou em Lisboa o julgamento do ex-inspetor da Polícia Judiciária portuguesa Gonçalo Amaral. Na qualidade de coordenador do Departamento de Investigação Criminal, ele chefiou a equipe de investigadores que tentou apurar o que aconteceu a Madeleine McCann.

Em setembro de 2007, Kate e Gerry foram, como se diz em Portugal, “constituídos arguidos” – ou seja, considerados oficialmente suspeitos e assim acusados pela polícia portuguesa. Em seu livro, Kate revela que a Polícia Judiciária lhe propôs “apenas 2 anos de prisão, se eu confessasse ter escondido o corpo de minha filha”. Em julho de 2008, depois de 14 meses de investigações das autoridades lusas, o caso foi arquivado por falta de provas. Mais tarde, já com o casal McCann de regresso a Grã-Bretanha, Gonçalo Amaral publicou o livro Maddie: A Verdade da Mentira. Nele, defende a tese do envolvimento dos pais no desaparecimento da criança, com a ocultação do cadáver. O canal português TVI produziu um documentário baseado no livro.

Os McCanns negaram as acusações e abriram um processo contra o autor, por calúnia e difamação, reclamando uma indenização de <SC480,65> 1,2 milhão (cerca de R$ 3 milhões). A venda do livro foi proibida e os exemplares recolhidos. Gonçalo Amaral recorreu e a sentença foi anulada em segunda instância, permitindo nova distribuição da obra. Por fim, em 18 de março de 2011, o Supremo Tribunal de Justiça confirmou, definitivamente, a primeira decisão, banindo o livro e interditando a transmissão do documentário (que, contudo, continua disponível no YouTube).

Por sua vez, o advogado do autor anunciou que seu cliente pretendia entrar com queixa-crime contra o casal McCann “por ofensas a seu bom nome”. O julgamento do processo aberto pelos McCanns está em curso e irá até o dia 5 de novembro. Num primeiro momento, Kate viajou para Lisboa com a mãe – certamente, Portugal é o último lugar do universo em que ela gostaria de estar. Gerry ficou na Inglaterra com os gêmeos. Nem Kate nem o marido tencionavam assistir às sessões, mas a advogada do casal, a portuguesa Isabel Soares, aconselhou a que um deles estivesse presente. O casal McCann não vai depor – e tampouco Gonçalo Amaral.

Kate e a avó de Maddie, sentadas na área do tribunal destinada ao público, ouviram o psicólogo inglês que acompanhou os gêmeos Sean e Amelie desde o desaparecimento da irmã. Na quarta-feira, o tribunal colheu o testemunho da tia de Madeleine Trish Cameron, irmã de Gerry, por sua vez presente na sala.

Em entrevista ao Aliás, Gonçalo Amaral alegou que o que está escrito em seu livro não é tese sua, mas “o resultado dos primeiros seis meses de uma investigação criminal efetuada por policiais portugueses e ingleses”. Segundo ele, a campanha desenvolvida pelos pais da criança teve como principal preocupação a defesa da imagem deles, com a contratação de agências de comunicação e imagem. Do dinheiro do “fundo”, que, de acordo com o ex-inspetor, na realidade não é um fundo, mas uma empresa de direito privado, apenas uma pequena parte é gasto na dita busca da criança. “Se os pais estivessem mais preocupados com a busca do que com a defesa de sua imagem, se teriam oposto ao arquivamento do processo crime que correu em Portugal, ou então pugnado pelo seu desarquivamento, mas isso eles não querem”, diz.

Amaral declarou que no dia em que foi demitido estava realizando diligências para que uma testemunha fundamental viesse a Portugal. Um turista estrangeiro que estava hospedado no resort. “Era um membro de uma família irlandesa que na noite do desaparecimento avistou um homem com uma criança ao colo, o qual, mais tarde afirmou, com 80% de probabilidade se trataria do pai da criança desaparecida”.

Os McCanns se queixam de que as suspeitas do inspetor português comprometeram o curso da investigação. Será que Gonçalo se sente em parte responsável por persistir o mistério do desaparecimento de Maddie? “Responsáveis foram aqueles que negligenciaram a guarda da criança e dos seus dois irmãos mais novos, bem como das outras quatro crianças que também foram abandonadas a dormir nos outros apartamentos para que os pais fossem usufruir de jantares bem regados a vinho durante todas as noites do período de férias.”

O antagonismo entre o casal McCann e Gonçalo Amaral em certa medida extrapolou para uma espécie de chauvinismo patriótico. Isso não obstante a Inglaterra e Portugal constituírem a mais longeva aliança política entre nações modernas, com vários tratados bilaterais de estreita cooperação. Parte da mídia portuguesa, especialmente alguns canais de TV, assediou os pais da menina – no melhor estilo dos tabloides britânicos. Poucos dias depois do desaparecimento, uma repórter do canal SIC (que exibe em Portugal as novelas da Globo) entrou ao vivo no telejornal para reclamar que tentara falar com Kate, mas ela “fora muito antipática”. Talvez o fato de ter acabado de perder a filha de 3 anos ajudasse a explicar um pouquinho da suscetibilidade da mãe diante de um microfone brandido contra seu nariz, como as imagens mostraram.

Na sua coluna de 17 de Maio no jornal Público, o então presidente da Ordem dos Advogados Portugueses, José Miguel Júdice, afirmou que a enorme comoção internacional se devia ao fato de a menina ser “inglesa, branca e filha de doutores”. Do lado britânico, brotaram desde o início reticências sobre o profissionalismo da polícia portuguesa. O jornal Daily News entrevistou meses a fio amigos e familiares dos McCanns, que denunciaram “as mentiras venenosas” de Gonçalo Amaral. O Guardian repetiu como um mantra “o prejuízo que a tese do inspetor português trouxe para as tentativas de encontrar Maddie, ao desencorajar cada vez mais os esforços antes postos na investigação”. A voltagem atingiu tal grau que a embaixada portuguesa em Londres protestou junto à comissão britânica reguladora de imprensa (Press Complaints Comission) contra um artigo publicado no Daily Mirror, que teria insultado o embaixador português por causa de uma entrevista deste a The Times sobre o caso.

Seria injusto dizer que considerações extemporâneas volta e meia ofuscaram a personagem principal dessa tragédia. Mas é necessário ter em foco o sofrimento do inocente absoluto, a criança. Que, no caso de Maddie, pode prosseguir neste exato minuto.

PAULO NOGUEIRA, JORNALISTA E ESCRITOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE O AMOR É UM LUGAR COMUM (INTERMEIOS)

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