Parismatch.com
Parismatch.com

Francês novo?

Gaúcho de Porto Alegre, o deputado Eduardo Cypel é o desafeto da extrema direita na França

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S. Paulo,

10 de agosto de 2013 | 15h39

PARIS - Às vésperas da invasão nazista a Varsóvia e em meio ao êxodo da população na 2ª Guerra Mundial, uma família de judeus poloneses deixou a Polônia rumo a Porto Alegre, fugindo do Holocausto. Abram Cypel, o Velvo, chegou à capital gaúcha em 1939, e lá fincou raízes com a família. Quarenta e sete anos depois, seu filho e seus netos retornaram à Europa, desembarcando em Paris. Entre eles estava Eduardo Rihan Cypel, hoje deputado da Assembleia Nacional, que se tornou o novo desafeto da extrema direita fascista da França.

 

Aos 37 anos, Cypel ganhou as manchetes francesas ao ser atacado na última semana. O autor das ofensas, Bruno Gollnisch, deputado europeu, é membro do comitê central da Frente Nacional (FN), maior partido extremista da França. É conhecido por atacar muçulmanos e relativizar as mortes no Holocausto, como fez em outubro de 2004.

 

Obcecado pela imigração, Gollnisch classificou o deputado de "francês de data relativamente recente", que o faz pensar "nessas pessoas que convidamos a nossa casa e, uma vez confortáveis, querem fazer vir todo mundo".

 

As declarações, premeditadas - Gollnisch tinha anotado suas palavras num papel -, visavam à origem estrangeira de seu alvo. Aos olhos de um extremista de direita, Cypel é tudo, menos um francês "de raiz", expressão usada contra aqueles que "não merecem" estar na França.

 

Cypel chegou a Paris em setembro de 1986, com 10 anos de idade, para viver em Créteil, periferia sul. Junto dos irmãos mais jovens, Raquel e Fernando, acompanhava a mãe e o pai, um psiquiatra que faria pós-doutorado na França. O desafio de ser estrangeiro ficou claro em seus primeiros dias de escola, quando soube que teria de voltar um ou dois anos de estudos porque não falava francês. Seu pai recusou a oferta, e a opção foi matriculá-lo em uma classe de iniciação para não francófonos.

 

Eduardo logo entendeu que não seria o único a enfrentar as adversidades da adaptação. "Na minha classe tinha crianças brasileiras, do Egito, Etiópia, Vietnã, Senegal, Marrocos, Paquistão, Armênia." Foi na classe de estrangeiros que uma admiração pela terra que o recebia começou a nascer. "Nós viemos de um país mestiço e multicultural, mas foi na França que descobri a diversidade do mundo e das pessoas. Sempre encarei isso como uma oportunidade muito grande", conta, com português impecável.

 

A integração também foi facilitada pelo skate e pelo futebol, que praticava com a camisa colorada, sendo disputado por quem organizava os times em busca do prestígio de um brasileiro na equipe. Em pouco tempo Cypel fez seus primeiros amigos. E aos poucos o projeto da família de retornar ao Brasil em cinco anos acabou adiado. Em 1996, aos 22 anos, Cypel tornou-se cidadão da República Francesa. Na época, estudava filosofia na Universidade de Paris XII, curso que completou em 1999. "Estava predestinado a ser professor."

 

Seus estudos continuaram em direção às escolas de elite, percurso típico dos jovens franceses de classe média e alta. Em 2000, ingressou no Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, onde aprofundou seus estudos em história, cconomia, direito público, filosofia e ciência política, concluindo um curso reputado por formar presidentes como François Mitterrand, Jacques Chirac e François Hollande.

 

O olhar para a política só viria em 21 de abril de 2002. Nesse dia, lembrado como tragédia nacional na França, o então presidente Jacques Chirac, gaullista (centro-direita), passou ao segundo turno das eleições presidenciais. Lionel Jospin, primeiro-ministro e esperança do Partido Socialista (PS) de retornar ao Eliseu, deveria ser seu concorrente. Mas quem ficou em segundo foi um fascista, Jean-Marie Le Pen, da FN. "A eliminação de Jospin e a presença de Le Pen me levaram a me engajar", explica.

 

Nessa época, o PS era a expressão do fracasso: um partido derrotado, sem bandeira, dividido. Para ajudar a reconstruí-lo, uma geração de jovens começou a se juntar à militância. Cypel hesitaria até dezembro de 2003 quando, na Sciences Po, deparou-se com o secretário-geral do partido, um certo François Hollande. "Me apresentei e disse que queria ajudar o PS. Ele respondeu: ‘Me escreve’."

Cypel juntou-se, enfim, às hostes socialistas e começou uma carreira ascendente, tutorado por Vincent Peillon, hoje ministro da Educação. Em 2008, foi eleito conselheiro municipal (vereador) de Torcy, a cidade da EuroDisney. Dois anos depois, virou conselheiro regional (deputado estadual) de Île de France, o departamento de Paris.

 

Era pró-Dominique Strauss-Kahn, então diretor-gerente do FMI, nas prévias do partido. "DSK aparecia como o único capaz de vencer as eleições de 2012. Havia uma bolha em volta de sua candidatura, que tinha 60% das intenções de voto", justifica. "Aí DSK implodiu e apoiei Hollande nas primárias abertas."

 

Ao vencer, o candidato socialista o convidou para sua equipe de campanha.

 

Cypel assumiu como responsável por questões de imigração, assunto sensível diante de um adversário como Nicolas Sarkozy, que fazia do tema seu cavalo de batalha. Fortalecido pelo apoio interno, Cypel decidiu dar seu maior passo político: chegar à Assembleia Nacional. No 8º Distrito de Seine-et-Marne, teve como adversária Chantal Brunel, deputada da União por um Movimento Popular (UMP), de centro-direita, tornada célebre pela proposta de "recolocar no barco" os imigrantes que atravessavam o Mediterrâneo vindos do Norte da África.

 

A vitória com 52,7% dos votos o projetou no Parlamento, onde se tornou um dos jovens destaques. Em março passado, quando Hollande, já presidente, enfrentava uma onda de protestos nas ruas contra o projeto que legalizava o casamento homossexual, foi chamado por Harlem Désir, atual secretário-geral, para ser um dos porta-vozes do PS. "Cypel sempre teve senso político, com grande capacidade de contato, diálogo e pedagogia com a população", explica Désir. "Ele ama o debate, sabe se comportar, é incisivo, não tem medo dos adversários mais duros. A direita e a extrema direita o temem por sua força, sua agressividade."

 

Aos poucos, Cypel conquistou espaço na mídia francesa - e virou persona non grata aos olhos dos mais radicais. O perfil aguerrido lhe rendeu o ataque de Gollnisch. O episódio de xenofobia, diz Cypel, lhe faz lembrar do avô, Abram. "Uma parte da minha família foi exterminada e outra teve de deixar a Europa em um barco para fugir da barbárie nazista", recorda. "Minha eleição é, de certa forma, uma revanche da história."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.