Francisco adia tarefa de nomear cargos-chave

Papa deve optar por nomes que representem renovação da Cúria, mas que atendam às demandas das várias alas da Santa Sé

CIDADE DO VATICANO , O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h03

O papa Francisco começa a enfrentar um dos maiores testes de seu pontificado: a formação de um governo na Santa Sé capaz de, ao mesmo tempo, reconciliar diferentes facções em guerra na Cúria e promover uma reforma com abertura e transparência. As mudanças, no entanto, não serão imediatas. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, anunciou ontem que elas foram adiadas para serem feitas com diálogo e reflexão. Segundo Lombardi, o papa quer um tempo para preparar sua equipe com "tranquilidade e profundidade". Até lá, portanto, o comando dos principais cargos permanecerá como está - incluindo a estratégica Secretaria de Estado, que segue nas mãos do cardeal italiano Tarcisio Bertone.

Segundo o Estado apurou, o argentino já deu indicações a pessoas próximas de que vai tentar formar um governo que represente renovação, mas que atenda às demandas de diferentes grupos, o que recriaria um sentimento de união na Igreja. Ele também promete um brasileiro no grupo.

O arcebispo de Paris, Andre Vingt-Trois, confirmou à reportagem que a formação do governo será seu "primeiro grande desafio". Mas tanto ele quanto outros reconhecem que Francisco tomará tempo para começar a fazer seus anúncios e escolher seus homens de confiança. "Ele certamente vai escutar muita gente antes de tomar uma decisão. Mas sabe que essa decisão é esperada por todo o mundo", disse.

"O papa já deixou claro que será um homem de proximidade, tanto do povo quanto de seus cardeais", afirmou o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer.

Um dos motivos da renúncia de Bento XVI foi justamente a guerra interna que se formou em seu governo, liderado pelo cardeal Bertone, o número 2 do Vaticano. Ao escolherem Jorge Bergoglio, os cardeais mandaram um recado claro: querem uma renovação e uma reforma da Cúria, de sua operação e de suas relações com o mundo.

Mas implementar essa reforma e suas "promessas de campanha" pode ser mais difícil do que se imaginava. Desde que assumiu, o comportamento de Francisco já deixou muita gente irritada dentro do Vaticano, ao mudar ritos litúrgicos, desprezar a pompa do cargo e não usar palavras tradicionalmente usadas por papas para se dirigir ao povo.

Nomeação. E isso foi apenas o início. "O mais difícil nem começou", alertou o assessor de um cardeal com amplo acesso à Cúria. Seu primeiro grande teste será a nomeação de pessoas que escolherá para ser seus ministros - ou prefeitos, como se diz nos termos do Vaticano -, além do posto de secretário de Estado e ministro de Relações Exteriores. "Francisco sabe que precisará colocar pessoas de confiança, que representem uma renovação, se quiser governar. Mas sem deixar a impressão de que vai marginalizar um grupo."

Um dos nomes citados para ocupar o cargo de número 2 do Vaticano é o do italiano Lorenzo Baldisseri, diplomata de carreira dentro da Santa Sé que por nove anos foi o núncio apostólico no Brasil, um cargo de alto prestígio. No dia seguinte à eleição, Francisco nomeou Baldisseri como cardeal, em seu primeiro gesto. Tradicionalmente, o cargo esteve na mãos dos italianos e, com um papa de fora da Europa, essa linha deve ser ainda mais reforçada, justamente para dar um sinal de que Francisco está disposto a compartilhar o poder.

Para analistas no Vaticano, trazer alguém de fora do atual grupo no poder daria um sinal forte. Mas também seria um risco, já que as intrigas e a crise ainda não foram solucionadas. Para completar, Francisco chega sem experiência na Cúria Romana e sem experiência administrativa na Igreja. Por isso, apelar aos serviços de alguém do grupo no poder, embora arriscado, poderia ser uma solução.

Brasil. Outro cotado para voltar ao Vaticano é d. Cláudio Hummes. O brasileiro foi fundamental na eleição do papa e declarou que todos os cardeais devem ficar à disposição do pontífice, deixando em aberto a possibilidade de voltar à Santa Sé. Hummes já foi prefeito de uma congregação durante o pontificado de Bento XVI e conhece as entranhas do Vaticano.

Mas ele não é o único cotado. Odilo Scherer, apesar de ter sido candidato, poderia atender à necessidade de Francisco de ter ao mesmo tempo um brasileiro em seu governo e um nome do grupo contrário. Scherer já vem sendo mencionado para a Cúria desde o pontificado de Bento XVI. Mas, pelo menos até agora, o Vaticano tem optado por mantê-lo em São Paulo.

Francisco ainda terá outro tema espinhoso para tratar nesses próximos dias. Sua tarefa será a de ler as 300 páginas de um informe secreto deixado a ele por Bento XVI, que seria o resultado de meses de investigações. No documento estariam evidências de escândalos de corrupção, resistência de grupos por mudanças e até rede de prostituição.

O dossiê foi encomendado depois do vazamento de informações pelo mordomo do papa emérito. "Ler será a parte fácil", disse um cardeal, pedindo anonimato. "O problema será lidar com os problemas." / JAMIL CHADE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.