Freud explica

Set de Luiz Fernando Carvalho o já denuncia diferencial do seriado 'Afinal, o que querem as mulheres?'

Patrícia Villalba / RIO,

11 Novembro 2010 | 06h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A primeira graça do novo seriado do diretor Luiz Fernando Carvalho está logo no título – Afinal, o que querem as mulheres? –, que se apropria da pergunta que perseguiu Sigmund Freud na fundação dos pilares da psicanálise – dúvida cruel e sem resposta, como se sabe. Mas também é capaz que haja um riso de desconfiança ou uma curiosidade imediata quando se é informado de que o seriado que estreia na próxima quinta-feira, às 23h, se trata de uma comédia, coisa que não se imagina Luiz Fernando fazendo. Afinal, o que seria engraçado para o diretor de obras famosas pela densidade, como o longa-metragem Lavoura Arcaica (2001) e as minisséries Os Maias (2001) e A Pedra do Reino (2007)? "Não é uma comédia exatamente. Tenho consciência de que estou buscando uma narrativa mais leve, um outro gênero, mas que agora não saberia nomear exatamente", explica ele ao Estado.

 

Faz tempo que o estilo de Luiz Fernando e as lendas em torno do seu método de trabalho chamam atenção. Aplaudido, criticado e invejado por ter conquistado a oportunidade de experimentar no meio veloz e industrial que é a televisão, ele tem posição única na Globo. E não é difícil ouvir alguém se queixar nos corredores da emissora de que "tempo para ficar criando, só o Luiz Fernando Carvalho tem".

 

Driblando as exigências sobre tempo de produção e medição de audiência, ele leva ao ar obras que, se não batem recordes de ibope, dão status de arte à teledramaturgia. "Exigem de mim exatamente o que exigem de todo mundo: audiência, produtividade, entrega, orçamento", diz. "A diferença é que, por necessidade, priorizo certas etapas da criação e luto muito para incluí-las no processo de produção, como por exemplo, a preparação dos atores."

 

Ser ou não ser. O processo de ensaios para filmar com Luiz Fernando é um dos diferenciais do diretor, que o pôs em posição de sonho de consumo de qualquer ator comprometido com seu ofício. O mergulho incondicional que ele propõe aos atores no seu universo ficcional começou a tomar vulto quando decidiu adaptar o romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para o cinema, no fim dos anos 90. Foram quatro meses de preparação dos atores, entre eles Selton Mello e Simone Spoladore, que permaneceram reclusos em uma fazenda para criar o envolvimento necessário para que o texto de Nassar tomasse conta do set de filmagens sem roteiro prévio.

 

"Desde garoto, o Luiz nunca deixou de trazer um diferencial", detalha a figurinista Beth Filipeck, que trabalha com o diretor, hoje com 50 anos, desde que ele foi assistente de Paulo José na minissérie O Tempo e o Vento, em 1985, e está com ele em Afinal.... "O público merece um trabalho diferenciado. Mas não é fácil, porque ninguém anda querendo elaborar muita coisa na televisão."

 

Beth, que viu a carreira de Luiz Fernando se desenvolver de perto – ela fez Lavoura Arcaica, Os Maias e Capitu –, diz que vê na nova minissérie, especificamente, uma intenção de se aproximar mais do que é popular e da modernidade que ele experimentou em Capitu. "Procuramos nos aproximar da linguagem das redes sociais, das mídias modernas, do diálogo curto, sem tantas reiterações da dramaturgia televisiva", detalha o diretor, que escreveu o seriado ao lado do ator Michel Melamed, que interpreta o protagonista (André Newmann), e dos escritores João Paulo Cuenca e Cecília Giannetti.

 

Cicatrizes. Ciente de que lida com o imponderável, Luiz Fernando admite que foi doloroso ouvir críticas duras e piadinhas infames sobre a adaptação que fez de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, em 2007, considerada hermética e fracasso de audiência. "Ela é hermética mesmo, assim como o romance. Ainda tenho as costas cheias de cicatrizes por ter feito A Pedra do Reino como fiz. Talvez tenha testado radicalmente os limites da TV."

 

A fama de exigente precede Luiz Fernando e, ao que parece, o desafio de agradar aquela figura imponente, de 1,90m de altura, toma conta de todos no set. "Ele é muito exigente, mas em primeiro lugar é exigente com ele mesmo – adoece, passa dos seus próprios limites", entrega a amiga Letícia Sabatella, que estreou na TV em 1991 após um convite dele para o especial Os Homens Querem Paz, fez Hoje É Dia de Maria em 2005, e está também em Afinal.... "Mas você fica querendo que a coisa aconteça no nível que ele propõe de busca pela arte. Ele é um místico, ritualiza o processo."

 

Luiz Fernando confirma que é seu maior crítico. "Não consigo rever nada do que fiz, tenho vontade de mudar tudo. Nunca assisti ao Lavoura Arcaica numa sala de cinema. Vez por outra ajustando a projeção, vi partes na cabine, e já foi muito para mim. Outro dia, zapeando, passei pelo Lavoura sendo exibido no Canal Brasil, desliguei e fui dar uma volta no quarteirão", lembra o diretor, perfeccionista reconhecido e assumido.

 

É um rigor encantador, como define Michel Melamed, e que rende histórias. Autora da adaptação de Os Maias (2001), de Eça de Queiroz, Maria Adelaide Amaral se lembra bem da ansiedade que antecedeu o primeiro episódio da minissérie, que foi ao ar pela metade porque, de tanto ser rigoroso, o diretor não conseguiu terminar a tempo. "Acabou indo ao ar apenas metade, e isso foi um transtorno para mim porque desorganizou todos os ganchos, e também para ele", conta ela, dando a dica, em seguida, de que não restaram ressentimentos. "Continuo achando que Os Maias é a melhor obra da carreira dele. E da minha."

 

Bis. O rigor, entretanto, não afasta os atores. Em Afinal..., além de Letícia, ele volta a trabalhar com Tarcísio Meira, Vera Fischer, Lavínia Vlasak, Osmar Prado e Michel Melamed, que se tornou parceiro de criação depois que interpretou o Bentinho, de Capitu. "O trabalho dele responde com muita precisão o que se espera de uma obra artística", define o ator. "É um ser mitológico, que vai ao limite para extrair beleza das coisas. Com ele eu aprendi que não é matar ou morrer, é matar e morrer."

 

No seu terreiro místico, Luiz Fernando não é o tipo de diretor que fica afastado da cena, vendo tudo pelo monitor. De um lado para outro, faz mais do que dar palpites e ordens. No dia em que o Estado esteve nos bastidores de gravação, ele até arrancou, à unha, uns apliques da camisa cowboy que Tarcísio Meira vestia.

 

Para se movimentar assim sem causar melindre, ele conta com o empenho de uma equipe fiel há anos. Nesse grupo, está, além de Beth Filipeck, a também figurinista Luciana Buarque – e ambas permitem que ele continue usando o figurino como "uma segunda pele dos personagens" –, o fotógrafo Adrian Teijido, que dá um colorido especial ao bairro de Copacaba em Afinal..., e o montador Márcio Hashimoto, que cola as cenas de modo quase musical.

 

Mas não foi sempre assim. "Passei anos buscando por profissionais, testando", conta o diretor. "Imagino que meu rigor possa incomodar aos descansados funcionários públicos, espalhados pelos mais diferentes cargos e funções e, confesso, sou bem duro com eles. Os que me acompanham sabem que a trajetória é árdua mesmo, estamos lutando contra muitos monstros e suas fórmulas tecnocratas, e isso exige rigor. Alguns não estão preparados."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, o amor...

O diretor Luiz Fernando Carvalho pede que o público não leve o ponto de partida do seriado Afinal, o que querem as mulheres? tão a sério – não se iluda, porque ninguém ousaria tentar responder tão complexa pergunta. "Como seria possível encontrar uma única resposta que atendesse a tantas demandas dos desejos? Talvez esta tenha sido a falha trágica do protagonista", explica o diretor ao Estado.

 

Na ficção criada por ele, e desenvolvida com João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Michel Melamed, o destemido pesquisador André Newmann (Melamed), não só tenta, como consegue. Estudante de psicologia, ele sai numa investigação intensa para escrever uma tese de doutorado que lhe dará fama e reconhecimento, mas que, paradoxalmente, acabará com seu casamento.

 

Sim, é aquela história de que sucesso profissional e amoroso não caminham juntos, um dos clichês amorosos explorados pelo seriado. Imerso na descoberta do feminino, André não é capaz de atender aos anseios da própria mulher, Lívia (Paola Oliveira).

 

"Há uma infinidade de repetições em todos nós, homens e mulheres, que nos curvamos muitas vezes em prol de um bem comum, um mundo melhor, princípios e moral elevada, enfim, tudo isso que me parece um material rico para dramaturgia", anota o diretor. "Por outro lado, a repetição destes comportamentos é cada vez mais tragicômica e ridícula. A série conta a travessia patética de um homem em relação aos seus objetos de desejo, ao amor, aos afetos e a uma espécie de visão do feminino que parece o devorar sempre."

 

Famoso autor de um best-seller, André terá e a tese esmiuçada por um seriado de TV. Na ficção dentro da ficção, ele será interpretado por Rodrigo Santoro, no papel de quase ele mesmo – Luiz Fernando criou um personagem que não é exatamente Santoro, mas a imagem que a mídia projeta dele. A situação fica tragicômica quando Rodrigo, num intenso laboratório para interpretar André, passará a persegui-lo.

 

Inebriado pela fama e em boa conta com as mulheres, André se joga numa vida de solteiro – outro clichê. E bastarão meia dúzia de capítulos para que ele se veja num confronto com todas as mulheres de sua vida e ninguém menos do que Sigmund Freud. "Então, depois de passar pelas agruras por tentar responder à pergunta freudiana, André, enfim percebe que esta pergunta deveria ser transferida aos homens", resume Luiz Fernando.

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