'Fui tratado como bandido', diz paulista preso na França

Ilegal foi preso por policiais à paisana e terá de deixar o país em junho.

Daniela Fernandes, BBC

26 de março de 2008 | 06h55

Após a eleição do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em maio de 2007, o paulista E., 22 anos, clandestino em Paris, temia que os controles contra ilegais fossem ampliados. Não imaginava que seria preso por policiais à paisana ao sair de um salão de cabelereiros, como um cliente qualquer, em janeiro deste ano."Foi a maior humilhação da minha vida. Fui algemado com as mãos para trás como um bandido. Sou de boa família, nunca roubei e só trabalho, mas fui tratado como um criminoso perigoso. Tiraram várias fotos minhas e também impressões digitais", disse à BBC Brasil o brasileiro, que entrou ilegalmente na França em outubro de 2006.E., que trabalha como faxineiro, foi preso em uma área popular da capital, onde há vários salões de cabelereiros africanos e também muitos imigrantes turcos, curdos, árabes e indianos. Os policiais o abordaram na rua e pediram sua carteira de identidade. Logo suspeitaram que a simples xerox da página de identificação do passaporte brasileiro (técnica utilizada por muitos ilegais, que nunca andam com os documentos) ocultava uma estada mais longa do que os três meses autorizados para os turistas. Ele foi imediatamente algemado. Foram longas horas de espera para ser interrogado inúmeras vezes em locais diferentes até ser enviado a um centro de detenção para clandestinos em Vincennes, nos arredores de Paris. "Durante quase doze horas, fiquei em uma sala na Secretaria de Segurança Pública sem nada, só com bancos de cimento e cobertas sujas. Comi uma espécie de lavagem. Então, fui para o Tribunal de Justiça de Paris e fiquei em uma sala lotada esperando durante horas. Me colocaram com bandidos de verdade, gente que estava presa por esfaqueamento", contou.Depois, E. foi levado a um centro de detenção específico para clandestinos perto de Paris. "O lugar estava tão lotado que eles não conseguiam achar uma cama para mim. Mas era melhor, a comida era mais decente e podíamos jogar videogame e assistir à TV", disse.E. somente foi libertado dois dias após ter sido detido na rua porque seu tio, também brasileiro e que vive legalmente na França há mais de dez anos, se comprometeu, durante a audiência na Justiça, a comprar a passagem de volta de E. para o Brasil. Se isso não tivesse ocorrido ou na falta de recursos para comprar a passagem, E. teria ficado preso até que as autoridades francesas encontrassem um lugar em um vôo para o Brasil. A expulsão teria sido muito rápida."Nessa audiência, mais uns 30 clandestinos foram julgados. A maioria era árabe, mas havia outro brasileiro, preso com uma carteira de identidade portuguesa falsa", disse o paulista. E. já tem a passagem e viajará ao Brasil em junho próximo, mas, até lá, seu passaporte brasileiro continuará retido pelas autoridades francesas e somente será devolvido por policiais no aeroporto, na hora do embarque.Enquanto isso, E. continua fazendo suas faxinas, apesar de ter vivido essa experiência traumática. Ele teme ser preso novamente, mas acredita que agora, com o retorno para o Brasil já fixado, nada mais grave pode acontecer.E. afirma que o medo da polícia entre os clandestinos brasileiros em Paris é grande e que eles tentam evitar locais considerados de risco. "As festas brasileiras, que eram animadas, têm agora pouca gente, quase só franceses", disse.Apesar de ter passado o que vê como o pior momento de sua vida, E. não desistiu e disse que vai tentar retornar à Europa dois meses após voltar ao Brasil. "Mas, desta vez, vou fazer tudo correto. Quero estudar e vou me inscrever em um curso na França para obter um visto de estudante", disse ele, que espera poder fazer faculdade na França para ter mais chances de trabalho no Brasil. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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