Fundação identifica dengue tipo 4 em Manaus; ministério nega

Ministério da Saúde contestou os resultados da pesquisa da FMT-AM e afirmou estar 'tranqüilo'

Michelle Portela e Lígia Formenti, Agência Estado

27 de março de 2008 | 18h58

A Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM) identificou a dengue tipo 4 em Manaus, após 20 anos do registro do último caso desse tipo de vírus no País. A descoberta não aumenta os riscos de surto da doença, afirmam pesquisadores da FMT-AM. A variação, no entanto, amplia o quadro de tipos da enfermidade, exigindo o mesmo tratamento dado aos outros três exemplares encontrados no País. Entretanto, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) não reconhece estudo.      VEJA TAMBÉM Especial - A ameaça da dengueApós 26 anos, dengue tipo 4 reaparece no BrasilFamosos doam sangue na luta contra dengue no Rio  Rio deixou de investir repasse da Saúde contra dengue, diz TCMTemporão diz que Maia sabia do risco de epidemia de dengue Cesar Maia acusa ministério de omissão 'criminosa' por dengueMedo da dengue aumenta procura por repelentes no RioPM pode arrombar porta de quem dificultar trabalho de agenteDengue atinge status de epidemia no RioDe acordo com a médica pesquisadora Maria Paula Mourão, da FMTAM, essa variedade da dengue não deve preocupar frente ao atual quadro de infecção no País porque não é mais grave ou virulenta que os demais modelos. "Não muda o protocolo de tratamento da doença, que é o mesmo para todos os tipos", afirmou.Apesar de afastar o risco de epidemia, os pesquisadores afirmam que o agente infeccioso tipo 4, ou DENV-4, é um complicador porque encontrará pessoas que nunca foram infectadas por ele e que, por isso, não estão imunes. Estão mais suscetíveis aos casos de dengue grave, a forma hemorrágica, os que já contraíram alguma das variáveis da moléstia."O que importa é a reincidência da doença, não o tipo do vírus. Quem já teve a infecção por certo tipo pode ser infectado por um outro. A forma hemorrágica não é comum, mas é mais possível se já existiu uma infecção anterior", disse Maria Paula. Desde novembro, a Fundação de Medicina atendeu 150 pacientes com dengue grave, sem casos de morte. De acordo com o Ministério da Saúde, somente em fevereiro, foram registrados 777 casos nas três principais variantes. TrabalhoA FVS-AM, órgão ligado à Secretaria de Estado de Saúde, não reconhece o trabalho porque os dados obtidos, a comprovação de registro da doença na capital amazonense, não se confirmou em pesquisas realizadas pela instituição. Outro aspecto levantado pelo chefe da FVS-AM, Evandro Melo, é que a incidência de um novo vírus provocaria um aumento significativo no número de casos. "Do ponto de vista epidemiológico, apresenta riscos ao controle da doença", disse.O vírus foi identificado, inicialmente, em três pacientes que procuraram a FMTAM para fazer exames de malária, mas tiveram diagnóstico de dengue sem agravamento, entre 2005 e 2006. Armazenado, o sangue deles foi analisado em 2007 a partir da adoção da técnica de Polymerase Chain Reaction (PCR), que consiste em analisar, automaticamente, milhões de cópias de um único segmento de DNA em questão de horas. A primeira autora do estudo, Regina Maria Pinto de Figueiredo, pesquisadora da FMTAM, declarou que a identificação da DENV-4 em três pacientes que vivem e trabalham na capital foi confirmada a partir de uma comparação seqüencial de DNA do vírus com outras cem seqüências registradas no GenBank, banco mundial de genoma."Comparamos as seqüências do vírus encontrado nos pacientes em Manaus e nos dados do banco, e percebemos que eram compatíveis, nos três casos", esclareceu Regina, que é doutora em biotecnologia. Essa variante da dengue não era identificada no Brasil desde 1982, mas foi encontrada na Venezuela e numa das Guianas. Entretanto, os pesquisadores ainda não confirmam a origem do vírus. Dos três supostos casos confirmados pela FMTAM, a FVS diz que dois são dengue do tipo 3 e o terceiro, outra doença de origem viral, sem riscos.  Ministério da Saúde O Ministério da Saúde contestou os resultados da pesquisa da FMT-AM.  O secretário-adjunto de Vigilância do Ministério da Saúde, Fabiano Pimenta, afirmou que o governo acompanha desde o ano passado a análise destes dados. Segundo Pimenta, testes feitos depois da pesquisa não confirmaram a infecção por dengue tipo 4. Uma busca foi feita também entre familiares dos pacientes, para verificar uma eventual infecção pelo tipo de vírus e nada foi encontrado. O Ministério vai enviar uma carta à revista contestando o resultado. De qualquer forma, vai enviar novamente um técnico para Manaus. "Mas estamos tranqüilos", disse Pimenta. A entrada do vírus tipo 4 no País é uma das grandes preocupações do Ministério da Saúde. Quando isso ocorrer, toda a população do País estará suscetível à doença. E, caso haja número alto de criadouros do mosquito transmissor, é tida como certa uma epidemia em grandes proporções. "Não há como esconder um problema como esse na gaveta. Claro que se fosse confirmada a presença do vírus 4, alertas seriam feitos, providências seriam tomadas."

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