Fusão nuclear exige mais investimento

Fonte de energia limpa, segura e abundante depende dos oceanos e está disponível para todas as nações, mas é preciso mais pesquisa

Stewart C. Prager, de Princeton (EUA), O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

As notícias sobre energia fervem nos EUA; os preços da gasolina sobem, o etanol é atacado e a energia nuclear se debate nas sombras do desastre de Fukushima. Mas uma fonte de energia limpa, segura e abundante, antes considerada coisa de ficção científica, está mais próxima do que muitos pensam: a fusão nuclear. Mas torná-la realidade exigirá muito investimento do governo num período em que as despesas com pesquisa científica estão ameaçadas.

Utilizar fusão nuclear, que produz a energia do Sol, é objetivo dos físicos desde os anos 50. Essa energia pode ser criada com isótopos de hidrogênio, como o deutério, facilmente extraídos do mar.

A energia é produzida fundindo dois núcleos atômicos, convertendo massa em energia, que se transforma em calor. Esse calor, como nos reatores de fissão nuclear convencionais, transforma água no vapor que movimenta as turbinas que geram eletricidade ou produz combustíveis para transporte e outros usos.

Essa energia não produz gases-estufa. Não oferece riscos de acidente catastrófico. Está disponível para todas as nações, dependendo somente dos oceanos.

Mas há um inconveniente. Seu desenvolvimento é um dos maiores desafios científicos e de engenharia jamais enfrentados. Requer a produção e o confinamento de um gás quente - o plasma, a uma temperatura de cerca de 100 milhões de graus Celsius.

Soluções potenciais para esses desafios estão surgindo. Uma das propostas é a fusão magnética, na qual o plasma em alta temperatura é aprisionado por magnetos. Outra abordagem é o uso de lasers para bombardear uma bolinha congelada de combustível que gera fusão (núcleos de deutério e trítio). Enquanto a fusão magnética retém o plasma quente indefinidamente, como o Sol, no segundo enfoque o processo se assemelha a um motor de combustão interna, com várias miniexplosões.

Outrora pouco compreendida, a física do plasma está bastante desenvolvida. Os cientistas não só produzem plasmas a 100 milhões de graus Celsius rotineiramente, mas controlam e manipulam esses "pequenos sóis".

Sete parceiros. União Europeia, China, Índia, Japão, Rússia, Coreia do Sul e Estados Unidos - se uniram para produzir 500 milhões de watts de energia para 500 segundos.

Mas, apesar de os EUA contribuírem com esse experimento, conhecido como Iter, o país deve se comprometer com o programa completo, necessário para desenvolver um reator de fusão doméstico que produza eletricidade para a rede elétrica americana. Enquanto isso, outros países se movem para transformar a fusão nuclear num ingrediente que vai assegurá-las do ponto de vista energético.

Institutos de pesquisa da fusão nuclear mais modernos que os dos EUA estão sendo construídos ou já em operação na China, Alemanha, Japão e Coreia do Sul. A vontade e o entusiasmo dos governos na Ásia para preencher suas necessidades energéticas com a fusão nuclear, o mais cedo possível, é quase palpável.

O que falta aos EUA é disposição política e econômica. São necessários investimentos públicos sérios para desenvolver materiais que possam suportar o ambiente onde se processará a fusão, sustentar o plasma quente indefinidamente e integrar isso numa instalação experimental para produzir energia continuamente.

Isso não é barato. Seriam necessários US$ 30 bilhões e 20 anos para o país sair do atual estado de pesquisa para o primeiro reator de fusão. A soma equivale a 2% dos gastos anuais com energia, US$ 1,5 trilhão.

Antes se pensava que a fusão nuclear seria uma fonte de energia para os netos da minha geração; hoje, os planos são de uma usina de demonstração em 20 anos. A fusão nuclear tem potencial para ajudar na solução dos desafios deste século: independência energética, competitividade econômica, responsabilidade ambiental e redução de conflitos por recursos naturais. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PROFESSOR DE ASTROFÍSICA NA UNIVERSIDADE DE PRINCETON

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