Futsal movido a dekassegui

Nascido em Campinas, onde começou a jogar, Ricardo Higa tornou-se um dos protagonistas da popularização da modalidade em terras nipônicas

Amanda Romanelli,

12 de abril de 2008 | 21h02

A taça que simboliza a principal conquista do futsal japonês – a Copa da Ásia, em 2006 – foi levantada por um brasileiro. O ala Ricardo Higa, de 34 anos, é um dos protagonistas do processo de popularização da modalidade em terras nipônicas. Criado no Brasil, o futsal se desenvolveu no Japão especialmente pela influência dos dekasseguis. Ricardo é um deles – um dekassegui da bola. Leia também:Zico e Rui Ramos: alegria nos gramados japonesesDo Matsubara, no Paraná, para o mundo Nascido em Campinas, onde começou a jogar futsal, Ricardo foi para o campo e se profissionalizou no Rio Branco, de Americana, em 1993. Admite que não teve muito sucesso – no Brasil, japonês (ainda que tupiniquim) não é visto como craque em potencial. "Ouvia muita piadinha. Diziam que eu deveria ir trabalhar no Ceasa. Mas sempre levei numa boa." Rodou por alguns clubes do Interior paulista, do Paraná e de Goiás, até tentar a sorte no exterior. Descendente de okinawanos, Ricardo decidiu, em 1997, testar a vocação de boleiro no Japão. Por um tempo, precisou conciliar os treinos com a vida de trabalhador comum – afinal, não é barato viver no Japão. "Eu fazia uns bicos e treinava em equipes amadoras." Passou por várias cidades, mas teve a grande chance em 2000, justamente em Okinawa, no FC Ryukyu.  "Recebi o convite para atuar nesse time, que era de uma liga estadual. Ao menos, eles iriam me pagar para eu só treinar." Lá encontrou Rui Ramos, brasileiro que atuou pela seleção japonesa (leia ao lado), como técnico. Três anos depois, veio do veterano um conselho valioso: pedir a naturalização. Em quatro meses, o meia Ricardo tornou-se cidadão japonês. E, naquele mesmo ano, a história do jogador cruzou com a de outro brasileiro, Sérgio Sapo. Ex-jogador da seleção brasileira, Sérgio foi convidado por Zico a assumir a seleção japonesa de futsal. "Não pensei duas vezes", conta. Através de amigos, como Rui Ramos, Sérgio conheceu Ricardo. "Dei a ele a primeira oportunidade na seleção."  O nipo-brasileiro ganhou a braçadeira de capitão do time de futsal, embora continuasse jogando futebol de campo em Okinawa. Foi assim até o título continental, em 2006, após dois vices (em 2004 e 2005). Como líder do time, levantou a taça. Mas, confessa, ficou um pouco constrangido. "Chamei o jogador japonês mais experiente e falei: essa conquista é de todos nós." O título trouxe reconhecimento e permitiu a Ricardo viver apenas do futsal. Em 2007, o Japão realizou seu primeiro torneio nacional. Ele é o astro do Nagoya Oceans, que tem mais cinco brasileiros (incluindo o técnico) e foi campeão por antecipação. A competição terminou em fevereiro, com ingressos a US$ 20 (R$ 35). Para este ano, a meta de Ricardo é voltar ao Brasil – mas para jogar o Mundial, em outubro. O Japão brigará, na Copa da Ásia, em maio, por uma das quatro vagas. Espera ter tempo de rever os amigos e de treinar o português. 

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