Galã de cinema na música clássica

Alec Baldwin divide a carreira de ator com a de apresentador e crítico das obras da Filarmônica de NY em programa de rádio

Daniel J. Wakin, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2009 | 00h00

Alec Baldwin, o ator de carreira agitada em Hollywood, tem uma nova ocupação: a de mestre-de-cerimônias da alta arte, exemplificada por nomes como Mahler, Tchaikovsky e Beethoven. Nesta atual temporada lírica, Baldwin tornou-se o apresentador oficial dos programas semanais da Orquestra Filarmônica de Nova York na WFMT Radio Network. Para a Filarmônica, contar com a participação de uma figura de destaque da cultura popular é tão valiosa quanto ouro.

"A música clássica está atualmente fora da cultura de massas", explica o diretor musical da orquestra, Alan Gilbert. "Qualquer pessoa que expresse interesse no que fazemos é bem-vinda. Melhor ainda se for uma pessoa famosa." No momento, Baldwin, de 51 anos, é muito assediado por causa do seu premiado papel de executivo de emissora no seriado da NBC 30 Rock. Ele também acompanhará Steve Martin como apresentador na festa da entrega do Oscar em março. E não descuida do cinema. Seu filme mais recente, Simplesmente Complicado (It"s Complicated), com Meryl Streep e Steve Martin, foi lançado no Natal (e deverá chegar ao Brasil em fevereiro), coroando uma carreira que por décadas percorreu caminhos tortuosos.

Partindo de papéis coadjuvantes em filmes como Os Fantasmas se Divertem, De Caso com a Máfia e Uma Secretária de Futuro, ele se tornou o ator principal de A Caçada ao Outubro Vermelho, abandonou o status de astro dos filmes de ação com uma elogiosa interpretação para o papel de Stanley na montagem de Um Bonde Chamado Desejo na Broadway, e, nos últimos anos, atraiu a atenção dos críticos com seu retrato aguçado de farristas, rebeldes e fanfarrões em filmes como Quebrando a Banca e Os Infiltrados. Sempre inquieto, Baldwin expressou diversas vezes nos últimos anos seu desejo de abandonar a carreira de ator. "Amo o que faço - disse ele numa entrevista -, mas há outras coisas que eu gostaria de tentar." Nas palavras de Baldwin, o trabalho com a Filarmônica também proporciona um antídoto para o mundo superficial - apesar de lucrativo - do cinema e da TV. Compara essa atividade ao envolvimento com uma peça sem fins lucrativos depois de encerrar sua participação num filme.

Quando tinha 24 anos, Baldwin passou por um constrangimento enquanto atuava no seriado The Doctors. Em determinada cena, seu personagem entra num quarto de hotel e liga o rádio antes de ser assassinado. Por acaso o diretor de elenco, Roger Sturtevant, estava presente. "Entra a música, uma música evocativa", recorda Baldwin. "Então me voltei para Roger e vi que ele estava rindo. Perguntei qual era a graça e ele, me olhando como se eu fosse um idiota, disse simplesmente: "É a Sinfonia Fantástica, de Berlioz, a Marcha para o Cadafalso. Todo mundo conhece." Todo mundo, menos eu. Me senti mesmo um idiota. Foi aí que tudo começou, passei a ouvir música clássica no rádio do carro."

Sua principal função na Filarmônica é apresentar e comentar as obras tocadas durante a Semana da Orquestra Filarmônica de Nova York, programa transmitido por 295 emissoras pela WFMT Radio Network. Baldwin já estava no radar da Filarmônica muito antes desta temporada. Os funcionários da orquestra sabiam que ele gostava de comparecer aos concertos. Num perfil publicado em setembro de 2008 pela revista New Yorker, Baldwin falou de seu amor pela música clássica e brincou, dizendo que gostaria de apresentar no rádio um programa do gênero. Essa declaração atraiu a atenção de Eric Latzky, vice-presidente de comunicação da orquestra, que distribuiu o artigo entre os músicos. Baldwin foi então consultado sobre a possibilidade de apresentar os programas transmitidos no rádio.

Para a sessão de gravações, ele treina a leitura, trabalhando ao lado do produtor, Mark Travis, para determinar a pronúncia correta dos nomes dos compositores e músicos. Então, lê e grava uma tomada completa, pigarreando e recomeçando com frequência. Ele pergunta a Travis sobre o clima final de uma composição e, então, adapta sua entonação para acompanhar o mesmo sentimento. "As palavras devem ser entregues à audiência da forma mais lânguida possível. A ideia é fazer com que cheguem ao público com suavidade e clareza", diz Baldwin.

Quando indagado sobre suas apresentações favoritas, ele as enumera: "A 9ª de Mahler regida por Solti. Qualquer peça de Copland regida por Slatkin. Gosto do ciclo de Mahler por Tilson Thomas. Fui a Tanglewood alguns anos atrás e vi Levine reger Dafne e Cloé. Achei incrível." Baldwin diz não ter tempo de comparecer a apresentações de ópera além dos concertos de orquestra. Mozart e música "animada" não figuram entre os seus favoritos. "Acho que gosto das músicas mais emotivas, do tipo mais sonoro", conta ele, citando compositores como Tchaikovsky, Sibelius e Vaughan Williams. Baldwin desenvolveu uma maneira de testar as obras e descobrir se gosta delas. "Ouço uma peça de que gosto e penso: Isto poderia tocar no meu velório, esta será a música do meu funeral."

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