Galeto à la Sade e sopa de missô à la Kafka

Inglês Mark Crick faz livro de receitas no estilo de grandes autores

Cíntia Bertolino,

05 Novembro 2009 | 10h01

Por detestar os tradicionais livros de receitas, o escritor inglês Mark Crick resolveu fazer um bem diferente dos que existem no mercado. Tomando emprestados os estilos literários e personagens de autores como Jane Austen, Gabriel García Márquez, John Steinbeck e o marquês de Sade, Crick escreveu o divertidíssimo A Sopa de Kafka (Editora Argumento, R$ 32), que acaba de ser lançado no País. O livro, segundo ele, "uma história completa da literatura mundial em 14 receitas", traz sempre um personagem do autor escolhido apresentando o prato no estilo do escritor. "K." , por exemplo, inspirado no personagem Joseph K, de O Processo, de Franz Kafka, ao procurar algo para comer depara-se com a kafkiana situação de uma rala sopa de missô e convidados assustadores à mesa de jantar. De Londres, Crick falou com o Paladar. O que inspirou o livro? O tédio de comer, durante muitas noites seguidas, num mesmo restaurante de hotel no Catar, onde estava fotografando uma coleção de arte islâmica. Durante o jantar ficava pensando em outros pratos e como seria bom ler um livro de receitas escrito por um grande escritor. Quando voltei a Londres, selecionei os pratos que gosto de cozinhar e fiquei imaginando que autores poderiam "escrever" aquelas receitas. E como escolheu os autores? Procurei escritores com estilos marcantes, que com uma frase já desse para sacar quem era o cara, gente de que gosto e admiro, que já li e reli. De quem é o estilo mais inconfundível? Raymond Chandler tem uma voz incrível. Quando você lê um livro dele dá vontade de falar como os personagens. E as receitas, de onde vieram? Foi um desafio. Toda vez que escolhia um escritor tinha de pensar no prato que me permitisse usar sua linguagem e fosse coerente com sua literatura. Com Raymond Chandler, por exemplo, senti que nunca poderia ser uma receita vegetariana. Tinha de haver um "cadáver", ou ao menos um pedaço de carne. E claro, também quis usar receitas que gosto de fazer. Se você pudesse levar um escritor para jantar, quem seria? O escritor medieval Geoffrey Chaucer. Há um boato de que ele teria sido espião do rei da Inglaterra. Chegou a ser preso e, quando foi solto, Sua Majestade o recompensou com mil garrafas de vinho por ano até o fim de sua vida. Como a Inglaterra controlava as fronteiras marítimas, imagino que o vinho fosse excelente. E, claro, ele deve ter sido um grande contador de histórias. Borges também seria interessante. Já um jantar com Graham Greene talvez fosse um pouco deprimente.

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