Diniz Costa/UFMA
Diniz Costa/UFMA

Ganhador do Nobel tem dia de popstar

Dan Shechtman, Nobel de Química de 2011, inspira jovens com palestra em São Luís

MARIANA LENHARO, ENVIADA ESPECIAL A SÃO LUÍS, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2012 | 03h08

Com recepção digna de popstar, o prêmio Nobel de Química de 2011, o israelense Dan Shechtman, falou na semana passada durante uma hora e meia a uma plateia atenta que lotou o principal auditório da Universidade Federal do Maranhão, em São Luís. Muitos se sentaram no chão para ouvir como sua descoberta mudou a definição de um cristal e de que maneira ele superou o descrédito com que suas ideias foram recebidas pelo meio acadêmico.

 

Ao final da conferência, que fez parte da programação da 64.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ficaram para os jovens pesquisadores da plateia quatro valiosos conselhos de Shechtman: especializar-se em uma área, acreditar em si mesmo, ter tenacidade e, finalmente, ter coragem. Para o pesquisador, se não tivesse seguido esses princípios, não teria chegado lá.

 

Encantada com o carisma e a didática do cientista de 70 anos, a plateia se amontoou no palco, onde Shechtman posou para fotos e deu autógrafos durante mais de uma hora. Foi preciso uma intervenção enérgica da presidente da SBPC, a pesquisadora Helena Nader, para que os fãs se organizassem em uma fila. Hoje, além de professor do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion), Shechtman coordena um projeto de ensino de ciência na pré-escola em Haifa, cidade onde mora.

 

Em sua passagem pelo Brasil, Shechtman falou sobre os principais desafios para a ciência nos países em desenvolvimento e se mostrou preocupado com questões morais que a ciência deve enfrentar. "A ciência vai produzir uma arma muito mais séria que a bomba de hidrogênio, que vai parecer um brinquedo em comparação com a capacidade de mudar o genoma humano" disse ele após a conferência.

 

Trajetória. Quem pensa que o ramo da cristalografia, no qual Shechtman é especialista, está longe da vida cotidiana vai se surpreender ao descobrir que a maioria dos materiais que compõe os objetos que usamos são cristalizados, como a cerâmica, o metal e o vidro. A propriedade desses materiais - se são resistentes ou maleáveis, por exemplo - é conferida pela forma como seus átomos se organizam.

 

Antes da descoberta que lhe rendeu o Nobel, os cristais eram definidos como sólidos compostos por átomos arranjados em um padrão periódico em três dimensões. Em uma tarde de 1982, Shechtman analisava uma liga metálica com um microscópio e observou que nela os átomos se organizavam sem periodicidade e com um tipo de simetria até então considerado impossível. Em seu caderno de anotações, a descoberta vem acompanhada de três pontos de interrogação.

 

Certo de que havia descoberto algo nunca antes descrito, material que batizou de quasicristais, o cientista submeteu um artigo ao Journal of Applied Physics. O estudo foi rejeitado e a sugestão dos editores foi que ele submetesse o texto a uma publicação do setor metalúrgico. Dessa vez, a pesquisa foi aceita, mas foi publicada como um estudo menor.

 

Sua persistência em defender a existência dos quasicristais fez o líder de seu grupo de pesquisas no Technion sugerir que ele relesse um livro sobre cristalografia básica. Em seguida, Shechtman foi expulso do grupo.

 

Em 1984, ele conseguiu publicar a descoberta no Physical Review Letters. Finalmente começaram a surgir pesquisadores dispostos a estudar os quasicritais. Mesmo assim, as contestações continuaram: a União Internacional de Cristalografia exigia que os resultados fossem comprovados por uma técnica de raio X, o que foi possível em 1987.

 

Para os estudantes que participaram do evento, a trajetória do vencedor do prêmio Nobel teve quase o mesmo efeito de uma palestra motivacional. Uma das alunas que pediu a palavra ao final da conferência contou a Shechtman que a emoção que sentira ao vê-lo falar era a mesma que sentiria se pudesse ver um show dos Beatles.

 

Cientistas devem aprender inglês, aconselha

 

Para Dan Shechtman, um dos principais obstáculos a serem enfrentados pelos países em desenvolvimento em relação ao progresso da ciência é o fato de que nem todos os pesquisadores falarem inglês, chamada por ele de “a linguagem científica”.

 

Outro desafio é que haja verbas suficientes para financiar a ciência. Para ele, cabe aos cientistas exigir do governo a infraestrutura e os equipamentos necessários para as pesquisas.

 

Para o futuro, ele vê no Brasil um grande potencial de crescimento na área da biologia, que deve aproveitar a riqueza de biodiversidade da Amazônia.

 

A educação, desde o nível mais básico, também é apontada como essencial. Shechtman disse que a formação de um cientista começa na pré-escola.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.