Suzanne Plunkett/Reuters
Suzanne Plunkett/Reuters

Gates e farmacêuticas fazem esforço para erradicar dez doenças tropicais

Laboratórios doarão 14 bilhões de doses de remédios até 2020 e, com recursos doados, desenvolverão novas drogas

Jamil Chade, GENEBRA ,

31 de janeiro de 2012 | 03h04

Com a expansão dos mercados nos países em desenvolvimento na mira e financiados pela Fundação Bill & Melinda Gates, as 13 maiores empresas farmacêuticas do mundo se uniram para doar, produzir e vender bilhões de doses de remédios e estabelecer, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o prazo de até 2020 para erradicar ou pelo menos controlar dez doenças tropicais, entre elas a hanseníase e a doença de Chagas.

O evento que marcou o lançamento da iniciativa, em Londres, contou com a presença do secretário de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, dando apoio à iniciativa. "A meta de erradicar e controlar essas doenças até 2020 é realizável", disse.

O objetivo é distribuir 14 bilhões de doses de remédios nos países pobres, onde essas doenças tropicais afetam cerca de 1 bilhão de pessoas. Parte dessa quantidade de remédios será doada pelas farmacêuticas. Outra parte terá de ser desenvolvida - e aí entram os demais parceiros, como a Fundação Gates, o Banco Mundial e os governos da Grã-Bretanha, Estados Unidos e dos Emirados Árabes Unidos.

Eles se comprometeram a liberar um financiamento para o apoio à pesquisa, fortalecimento das redes de distribuição e tratamento dessas doenças no valor de US$ 785 milhões, dos quais metade virá do bolso do bilionário americano Bill Gates, por meio de sua fundação.

O projeto visa a superar décadas de abandono de populações inteiras afetadas por essas doenças, todas vivendo nas regiões mais pobres do mundo. Para as multinacionais, sempre foi mais rentável desenvolver remédios para queda de cabelo ou colesterol que para essas doenças - que, diante da miséria das populações, não representam um mercado atraente.

Em uma tentativa de reverter essa imagem e tendo em mente os mercados dos países emergentes em expansão, empresas como a GlaxoSmithKline, Novartis ou Pfizer desenvolverão novas tecnologias, mas já sabendo que terão um comprador e, principalmente, lucros.

Projeto. É o caso da doença de Chagas - que leva o nome do médico brasileiro Carlos Chagas, que descobriu a doença há 103 anos -, uma das doenças tropicais que exigirão investimento em pesquisa. A Bayer se encarregará do projeto que, só na América do Sul, poderá beneficiar 10 milhões de pessoas. Hoje, 10 mil pessoas por ano morrem na região por causa da moléstia.

Gates deixou claro ontem que, sem a nova doação, a meta da erradicação seria "totalmente descartada".

"Estamos vencendo doenças que estão com a humanidade desde a Antiguidade", disse Margaret Chan, diretora da OMS. "Estou certa de que quase todas essas doenças poderão ser eliminadas ou controladas até o final da década", afirmou.

Negligência. Segundo os especialistas, metade das cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo afetadas a cada ano por uma das dez doenças é composta de crianças. "Há a possibilidade de que, em poucos anos, já não usaremos o termo 'doenças negligenciadas' para falar delas", disse Gates. Para Caroline Anstey , do Banco Mundial, cunhar essas doenças de negligenciadas é um equívoco. "São doenças tropicais. Quem são negligenciadas são as pessoas", afirmou.

Jarbas Barbosa adota uma postura similar à do Banco Mundial. "Na América Latina, essas doenças estão localizadas em áreas rurais e entre a população indígena", diz. " Portanto, para solucionar esses problemas, a primeira medida é tornar essas pessoas visíveis", acrescentou, lembrando da ação que o governo fez em terras ianomâmis. "Garantir o acesso é o mais importante", afirmou, insistindo que a iniciativa de dar visibilidade aos grupos afetados deve ser uma prioridade política de governos.

Na avaliação da OMS, essas doenças geram perdas bilionárias a cada ano em termos de produtividade. "Estamos comprometidos a revolucionar a forma de lidar com essas doenças", afirmou Andrew Witty, CEO da Glaxo, que falou em nome das empresas farmacêuticas.

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