Geithner vai acabar no Goldman

O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, deve depor hoje na Comissão de Supervisão e Reforma do Governo da Câmara dos Estados Unidos. A audiência se constituirá certamente num bom cenário para essa peça. Resta ver se nos revelará um governo eficiente ou que trabalha para poucos às custas de muitos. Se ficar demonstrado que Geithner não agiu no interesse dos contribuintes na operação de salvamento do American International Group (AIG), deve deixar o cargo.

Caroline Baum, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2010 | 00h00

Talvez esse pensamento tenha passado pela cabeça do presidente Barack Obama. Quando este propôs que se estabeleçam novos limites às dimensões e às atividades dos bancos de varejo, na semana passada, ao seu lado estava Paul Volcker, chefe do Conselho de Assessores Econômicos do presidente, cuja altura (quase dois metros) não deixa perceber a queda da sua influência - até o momento. Há muito tempo, Volcker defende que esses bancos deveriam ser proibidos de especular com depósitos garantidos pelo governo, mas sua voz foi sufocada pelas simpatias de Geithner e Larry Summers, outro assessor econômico de Obama, por Wall Street.

A comissão, presidida por Edolphus Towns, democrata de Nova York, requereu documentos do Federal Reserve (Fed) relativos ao resgate da AIG, em setembro de 2008, quando Geithner era presidente do Fed de Nova York. A instituição entregou cerca de 250 mil documentos, mas o conteúdo de alguns já havia vazado para a imprensa.

Os legisladores estão particularmente interessados na decisão de pagar às contrapartes da AIG, entre elas o Goldman Sachs Group e a Société Générale, 100 cents por dólar para cancelar, na mesma hora, as swaps de default de crédito (CDSs, em inglês) que a seguradora lhes vendera. Também querem saber por que o Fed de Nova York pressionou a AIG a não incluir essa informação nos documentos entregues às autoridades. O sigilo que cerca a operação serviu para aumentar as suspeitas de que o Fed de Nova York tenha feito algo suspeito e encontrado uma maneira escusa de injetar dinheiro nos bancos enganando o público.

Geithner disse, em seu depoimento, que o Fed estava de mãos amarradas, que não podia "deixar de cumprir de maneira seletiva suas obrigações contratuais sem correr o risco do colapso". Se foi essa a questão, por que esconder as provas? CDSs são contratos padronizados, negociados privadamente. Não temos ideia de como foram redigidos. Somente as partes estão a par disso.

Por meio de um porta-voz, Geithner disse que se recusava a "trabalhar em questões que envolvam companhias específicas, como a AIG", depois de sua nomeação para o cargo de secretário do Tesouro. Qual a probabilidade de Geithner não ter conhecimento ou de não estar envolvido nas negociações? O Fed de Nova York não respondeu às inúmeras indagações sobre a natureza da recusa.

"Não é necessário falar coisas ou emitir uma decisão para influenciar", diz Jacob Frenkel, ex-promotor federal e ex-supervisor da SEC (Securities and Exchange Commission), que hoje exerce advocacia particularmente. "A mera presença pode afetar o resultado".

Os problemas de Geithner são anteriores ao caso AIG. Depois que Obama o nomeou para o Tesouro, que o colocou no topo do Internal Revenue Service (Receita Federal), ficamos sabendo que ele mentiu na declaração de imposto de renda. Ele fez um acordo para pagar os impostos atrasados relativos aos exercícios de 2003 e 2004, depois de sofrer uma auditoria da Receita, em 2006, mas não pagou os impostos devidos para o exercícios de 2001 e 2002, até que Obama o nomeou.

Obama acelerou o processo de confirmação de Geithner no Senado alegando que ele era o único para o posto. Qual foi o grande feito que o recomendava a esse ponto? Como presidente do Fed de Nova York desde 2003, ele conhecia amplamente toda a história da crise e estava envolvido em várias iniciativas de salvamento. Além disso, perdeu tempo enquanto os maiores bancos quebravam.

Geithner ocupou vários cargos no Tesouro, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Fed. De algum modo, conseguiu livrar-se do estigma de sonegador, mas agora tanto os democratas quanto os republicanos do Congresso querem sangue. Talvez ele seja o bode expiatório de que Obama precisa para calar a gritaria popular, principalmente desde que o eleitorado se deu conta de que ele foi demasiado tolerante com os banqueiros.

Depois da perda da cadeira de Massachusetts que foi de Ted Kennedy no Senado, Obama está pondo à prova seu apelo populista. Portanto, deveria sacrificar um dos seus assessores políticos, que aparentemente erraram os cálculos na eleição de Massachusetts e julgaram erroneamente o apetite do público pela reforma do sistema de saúde, enquanto a principal preocupação hoje é a criação de empregos.

A degola de Geithner poderá ser positiva para o presidente e para o secretário do Tesouro. Obama seria visto como um aliado do povo e Geithner estaria livre para reclamar a justa recompensa: a proposta fabulosa do Goldman Sachs.

Caroline Baum escreveu Just What I Said (É o que eu disse).

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