Gelatina de prancheta

Sam Bompas e Harry Parr construíram modelos meticulosamente corretos da Catedral de St Paul e da Ponte Millenium, de Londres, e um terminal do aeroporto de Madri completo com pequeninos aviões.

Florence Fabricant, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2009 | 02h40

Infelizmente, para qualquer curioso interessado em ver essas obras extravagantes de arquitetura, elas foram comidas há muito tempo.

Gelatina trêmula, vivamente colorida, é o material escolhido por Bompas e Parr, dois jovens produtos de Eton e do University College, em Londres, que rapidamente se tornaram os principais artistas com gelatina, ou, como eles próprios se chamam, jelly mongers (vendedores de gelatina).

Parr, arquiteto, e Bompas, relações públicas, resolveram abrir uma banca de gelatina no Borough Market em Londres, perto de onde moravam. "As sobremesas no mercado eram muito indigestas e as gelatinas já foram consideradas o ápice da sofisticação", disse Parr. "Elas eram usadas como luxuosos centros de mesa, assim como o marzipã e o açúcar foram. Mas acabaram corrompidas pelas festas infantis."

O negócio não deu certo, mas os dois resolveram assumir a missão de restaurar a reputação manchada da gelatina.

Começaram pegando encomendas particulares e, cerca de um ano atrás, abriram a empresa Bompas & Parr. Já fizeram moldes para Heston Blumenthal, o chef-proprietário do três-estrelas Fat Duck, nos arredores de Londres, e Gordon Ramsay. Construíram um "bolo de casamento" com camadas de pequenos moldes, e uma festa da gelatina para pacientes de hospital.

Bompas e Parr montaram uma estrutura multicolorida para o aniversário do arquiteto sir Richard Rogers. "Essa nos tomou semanas e foi demolida em 15 minutos", disse Parr, de 26 anos. "Nós adoramos."

Bompas, de 25 anos, explicou: "Podemos fazer quase tudo. Fizemos um jantar de Natal inteiramente gelatinoso para a televisão, centenas de camadas, cada uma um prato diferente."

Para o restaurante Hawksmoor, em Londres, eles criaram um templo inspirado no campanário de uma igreja do século 18. "Ficamos impressionados com a as coisas esquisitas, ligeiramente excêntricas que eles vinham fazendo", disse Huw Gott, um dono do restaurante. "Nós também temos um toque de excentricidade inglesa e achamos que aquilo cairia bem."

Em fevereiro, os dois estiveram em Nova York para seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, uma interpretação da Marinettian Bombe do Futurist Cookbook, de Filippi Tommaso Marinetti, o tratado de 1932 sobre comida do futurista italiano.

A ocasião era um jantar no Inside Park em St. Bart?s, para comemorar o 100º aniversário da publicação do Manifesto do Futurismo, de Marinetti. Bompas & Parr foram contratados pela Performa, o grupo de artes performáticas que organizou o evento, para fazer a sobremesa,

Eles chegaram alguns dias antes, as malas cheias de equipamentos. "Estávamos muito receosos de passar pela segurança do aeroporto com todas aquelas coisas estranhas de plástico e metal que carregávamos", disse Bompas. "Mas não nos barraram nem em Londres nem em Nova York."

Cerca de uma hora antes de os cem convidados chegarem, Bompas e Parr começaram a desmoldar as gelatinas, montando-as em pratos e reservando-as no refrigerador móvel do restaurante. Estavam concentrados no trabalho e ninguém conseguiria distraí-los.

"Essa foi a primeira vez que fizemos um molde duplo", disse Bompas. "A parte externa é Campari e a interna, que tivemos de gelatinizar antes de a externa ficar pronta, é laranja."

Com Campari e açúcar para uma das gelatinas e suco de laranja para a outra, o resultado foi algo como um drinque, Campari com refrigerante, em forma gelatinosa.

Eles fazem os próprios moldes, projetando-os num computador nas oficinas do University College que os transformam em modelos tridimensionais e transfere as especificações para uma máquina que faz fundições plásticas dos moldes, os plugs. Uma vez pronto o plug, plástico poliestireno fino e maleável é aplicado nele no vácuo para criar os moldes individuais.

"No começo pretendíamos comprar velhos moldes de cobre", disse Parr. "Mas eles eram caros demais e alguns dos melhores pertenciam a colecionadores. Então partimos para fazer os nossos."

Uma encomenda geralmente custa a partir de US$ 450 e pode levar uma semana ou mais. As informações estão disponíveis em jellymongers.co.uk. Embora trabalhem num meio tradicional, alguns de seus projetos beiram a vanguarda. Em colaboração com um professor de química do University College, eles usaram quinino próprio para alimentos para criar uma gelatina que emite um brilho azulado sob luz negra. Outros experimentos estão em curso, incluindo o desenvolvimento de cristais dentro da gelatina.

Além de química, eles tiveram que aprender engenharia e culinária. No fim das contas, ou melhor, no fim da refeição, uma gelatina tem de ser saborosa.

Para Bompas, porém, o prazer da gelatina não está necessariamente em comê-la - está em vê-la tremer. Parr concorda: "Ela precisa tremer."

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