Generosidade e Achaques

'Anjos e Safados no Holocausto', de Roberto Lopes, põe em xeque diplomacia latina

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2011 | 17h53

Não houve apenas heróis, como Aracy de Carvalho, entre os diplomatas brasileiros que trabalhavam na Europa durante o pesadelo nazista. O jornalista Roberto Lopes, especializado na história diplomática latino-americana no Terceiro Reich, prepara para outubro o lançamento de um novo livro a respeito, Anjos e Safados no Holocausto (Editora Lafonte), no qual promete mostrar que, entre os diplomatas, apareceram burocratas que tentaram se aproveitar da situação, achacando os judeus.

"O livro é a primeira tentativa na historiografia sul-americana de abordar os esquemas de atendimento aos judeus na Europa", disse Lopes ao Sabático. O período escolhido, entre 1938 e 1939, é crucial: a Noite dos Cristais (1938), em que sinagogas e lojas judaicas foram alvo de uma onda de fúria nazista, mostrou aos judeus que o antissemitismo não era mais apenas retórico. Ademais, com o início da guerra, em 1939, e o avanço da Alemanha sobre outros países, ficou evidente que as possibilidades de refúgio para os judeus se reduziram drasticamente. Foi aí que a diplomacia da América Latina ganhou importância para esses desesperados. "Os judeus encontraram generosidade e até mesmo operações bem montadas para tirá-los da Europa, mas havia diplomatas corruptos que se aproveitavam da ocasião para ganhar dinheiro com aquilo", conta Lopes.

Segundo o pesquisador, havia muito mais diplomatas trabalhando em esquemas de corrupção do que gente disposta a ajudá-los. Lopes diz que esse fenômeno tem uma explicação simples: os países latino-americanos eram muito pobres. "Alguns deles deixavam seus diplomatas na Europa ocidental praticamente à míngua."

O jornalista dá exemplos dessa penúria, como o do representante da Costa Rica na legação do país em Paris, que não tinha uma máquina de escrever decente. "O chefe da missão sempre pedia desculpas a seus superiores na Costa Rica porque não tinha dinheiro para comprar uma máquina moderna." Além disso, muitos diplomatas latino-americanos na Europa eram pessoas cujos governos queriam se ver livres, ou então tinham de ser mantidas no exterior por motivos políticos, ou, ainda, eram apaniguados dos governantes. "Desse modo, era uma gente de baixo nível, em sua maior parte."

Mesmo o Uruguai, que era chamado na Europa de "Suíça da América do Sul", pela sua qualidade de vida, teve algum dos casos mais graves de funcionários corruptos, diz Lopes. Segundo ele, houve até um de seus diplomatas que foi flagrado pela própria Gestapo, a polícia política nazista, conhecida por ser visceralmente corrupta. "Ele tinha uma equipe de judeus alemães que captava a ‘clientela’ e ele a achacava barbaramente", conta o pesquisador.

Mas uma das histórias que Lopes considera mais dramáticas é a de Murillo Martins de Souza, cônsul brasileiro em Marselha. Ele foi expulso do Itamaraty em 1942 porque ousou ajudar os judeus. "O livro mostra como ele foi sendo cercado, como todas as medidas que ele tomava começaram a ser cerceadas pelo Itamaraty, como ele foi sendo desautorizado em tudo o que ele fazia", diz o pesquisador. "Ele foi uma pessoa que salvou muitos judeus da morte certa." Apesar disso, Murillo, o "cônsul solitário", ainda não está no Jardim dos Justos, homenagem de Israel aos não judeus que socorreram os perseguidos pelo nazismo.

ANJOS E SAFADOS NO HOLOCAUSTO

Autora: Roberto Lopes

Editora: Lafonte

(Lançamento em outubro)

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