Epitacio Pessoa/AE-26/5/2011
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Genética ajudará a juntar famílias separadas no passado pela hanseníase

Identificação, que servirá de base para pedido de indenização, será possível graças a parceria do governo federal com o Instituto Nacional de Genética Médica Populacional; entre 1920 e 1970, lei ordenava separação de filhos sadios dos pais com a doença

Fernanda Bassette e Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

Os cerca de 40 mil brasileiros cujos pais tiveram no passado hanseníase - doença que era chamada de lepra -, e deles foram separados ao nascer, vão poder confirmar seus vínculos biológicos com supostos irmãos, pais e outros familiares não identificados.  

 

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Isso será possível graças à uma parceria do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) com o Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp). O programa será lançado hoje, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio.

A ideia é que o Morhan mapeie o histórico e os documentos de pessoas que já identificaram prováveis familiares no Brasil para que o exame genético comprove os laços de parentesco. O cadastro atual dos filhos de ex-pacientes com hanseníase ainda é tímido - hoje tem cerca de 10 mil pessoas.

A médica responsável pelo protocolo será a geneticista Lavínia Schüler Faccini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E a primeira pessoa a se submeter ao exame genético será Maria Teresa da Silva Santos Oliveira, de 55 anos, que idealizou o início do movimento de encontro dos filhos.

Após pesquisar sua origem, Teresa descobriu possuir cinco irmãos biológicos, todos afastados dos pais ao nascer - mas falta comprovar o suposto parentesco com Marisa Ferreira Santos.

"Marisa não conheceu nenhum familiar. Ela só sabe que a mãe dela se chamava Maria José, que ela era de Minas e escrevia cartas para ter notícias dos filhos. A minha mãe também era mineira, tinha o mesmo nome e também escrevia cartas. Isso pode não significar nada, mas também pode mudar uma história", afirmou Teresa.

Como será. Segundo Lavínia, os exames genéticos serão feitos por meio de coleta da saliva das pessoas. "Existem várias características genéticas que podem indicar parentesco de irmãos ou de um familiar mais distante."

As amostras de saliva serão coletadas em todo o País, preservadas em recipiente refrigerado e enviadas para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, onde serão analisadas. Cada resultado deve demorar cerca de 15 dias.

Lavínia explica, entretanto, que não adianta os interessados ligarem direto para o HC para pedir para fazer o exame. "Só vamos analisar amostras previamente cadastradas e encaminhadas pelo Morhan ou pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos", orientou a médica.

Segundo Teresa, os resultados servirão de base para o pedido de indenização daqueles que não possuem nenhum documento que comprove que realmente são filhos de ex-pacientes e foram separados dos pais.

Segundo Artur Custódio, coordenador nacional do Morhan, cerca de 10% das pessoas atualmente cadastradas devem se beneficiar do exame genético. "Vale lembrar que apenas aqueles filhos que não tiverem nenhum documento serão indicados ao exame", afirmou.

PARA ENTENDER

Entre as décadas de 1920 e 1970, a legislação brasileira recomendava o isolamento compulsório dos pacientes com hanseníase, que eram mantidos em colônias. A lei ordenava que os filhos saudáveis desses pacientes que nascessem nas colônias fossem afastados da família. As crianças eram enviadas para educandários ou entregues para adoções irregulares e ficavam sem qualquer contato com sua família verdadeira.

Em 2007, o governo reconheceu que a política de isolamento foi um erro e, desde então, paga aos portadores da doença uma pensão vitalícia de R$ 750. Hoje, os filhos desses ex-pacientes também lutam para receber uma indenização do Estado.

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