Genoma humano influenciou novos biomédicos

Em pesquisa com mil cientistas de todo o mundo, 69% disseram que o feito, anunciado há dez anos, pesou na escolha de pesquisa

Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2010 | 00h00

Cerca de 69% dos cientistas que atuam na área biomédica avaliam que o Projeto Genoma Humano influenciou, em alguma medida, a escolha da carreira ou da linha de pesquisa que adotaram. O porcentual é fruto de uma pesquisa de opinião organizada pela revista Nature com mil pesquisadores de todos os continentes.

Quase metade dos entrevistados acredita que as promessas de terapias revolucionárias, que acompanharam o anúncio da conclusão do genoma em 2000, foram irrealistas. "Com esse novo e profundo conhecimento, a humanidade atinge o limiar de um imenso e novo poder de cura, capaz de revolucionar o diagnóstico, a prevenção e o tratamento da maioria das doenças, talvez todas", previu o presidente americano Bill Clinton, no dia 26 de junho de 2000.

Duas organizações rivais receberam os méritos pelo feito: o Projeto Genoma Humano, financiado com verbas públicas internacionais, e a companhia privada Celera Genomics, do cientista-empresário Craig Venter. Na realidade, só em 2003 a sequência completa foi publicada (mais informações nesta página).

Hoje, os resultados clínicos podem ser descritos, na melhor das hipóteses, como tímidos. Só em novembro de 2009, a Human Genome Sciences, outra empresa criada por Venter, conseguiu obter resultados promissores para uma droga desenvolvida com base no genoma humano decodificado: um medicamento para tratar o lúpus.

Mesmo assim, 45% dos pesquisadores ouvidos consideram muito significativo o impacto do genoma humano na sua área de pesquisa. Quase 30% afirmaram que usam de forma cotidiana as sequências de DNA descritas pelo projeto. Houve até quem afirmasse que não imaginava como biólogos trabalhavam antes da publicação do genoma.

"As soluções na área médica foram superestimadas porque se subestimou a complexidade do genoma", aponta Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química da USP.

Até o sequenciamento, acreditava-se que cada gene humano coordenaria a produção de uma proteína. Quando alguma proteína não funcionasse, surgiria uma doença. Em pouco tempo, ficou claro que o processo, na maioria das vezes, não é tão simples ou mecânico. "Estamos começando a desvendar as interações complexas que causam as doenças", aponta Verjovski-Almeida, que estuda a origem genética de tumores. "Falta muito."

Mas o sonho de uma medicina personalizada - em que se identifique com precisão as causas particulares de uma enfermidade com base no genoma - ainda está no horizonte. Para 35% dos cientistas que participaram da enquete da Nature, serão necessários de 10 a 20 anos para que o sonho se torne realidade. Por outro lado, cerca de 6% dos entrevistados não acreditam que viverão o suficiente para se beneficiar dos frutos da pesquisa.

Outro obstáculo que deverá ser vencido para popularizar a tecnologia é o custo do sequenciamento de genomas individuais. A empresa americana Illumina cobra US$ 10 mil e leva uma semana para entregar o resultado. No Brasil, há três equipamentos que utilizam uma tecnologia diferente, mais antiga. "Aqui, custaria por volta de US$ 2 milhões", estima Verjovski-Almeida. Espera-se que a próxima geração de sequenciadores possibilite a descrição genomas de US$ 1 mil em 15 minutos.

Mesmo sem os resultados clínicos, o projeto genoma já permitiu contribuições fascinantes, como a descoberta de que o homem contemporâneo carrega vestígios de um genoma neandertal. De certa forma, também preparou a última aventura de Venter: a criação de uma forma de vida sintética em laboratório.

O HISTÓRICO DO ANÚNCIO

Abril de 2000

Pesquisadores do Projeto Genoma Humano (público) e da empresa Celera Genomics (privada) anunciam que completaram, separadamente, o primeiro rascunho do genoma humano, com 97% da sequência terminada.

Fevereiro de 2001

Os projetos rivais publicam seus resultados e análises nas duas maiores revistas científicas do mundo - o Projeto Genoma Humano na Nature e a Celera, na Science. A publicação representa a validação dos dados.

Abril de 2003

O consórcio anuncia a conclusão definitiva do sequenciamento. A Celera acabou saindo de cena depois de admitir que sua sequência foi, na verdade, baseada no trabalho do consórcio público.

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