Ginecologistas acusam planos de interferência

Pesquisa mostra que 97% dos médicos dizem que as operadoras interferem em sua rotina; as mais citadas negam

GIOVANA GIRARDI, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h06

Ginecologistas e obstetras do Estado consideram ruim ou péssimo o atendimento dos planos de saúde e dizem que interferências das operadoras afetam seu trabalho. São situações como a redução do período de internação e a designação de auditores para autorizar procedimentos.

Esse é o quadro obtido por pesquisa Datafolha encomendada pela Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp). Após entrevistas com 451 profissionais associados à Sogesp, ela aponta que 97% deles consideram que há interferência das operadoras, sendo que para 58% a interferência é grande ou muito grande.

Quando indagados sobre como avaliam a qualidade dos serviços dos planos ou seguros de saúde, 45% disseram ser ruim ou péssima. A avaliação foi pior que a feita sobre a qualidade do serviço público de saúde, considerada ruim ou péssima por apenas 29% dos entrevistados (mais informações nesta página).

"Os médicos sempre viram o serviço público como um mau remunerador. Historicamente, sua renda vinha mais do consultório. Há duas ou três décadas, os médicos achavam que os planos pagariam melhor, mas hoje eles remuneram tão mal quanto historicamente pagou mal o sistema público", afirma César Fernandes, presidente da Sogesp.

Mas o problema mais grave apontado foi a interferência. A situação mais citada, por 87%, foi a "glosa de procedimentos", em que a operadora se recusa a pagar por atos já realizados pelo médico. Os entrevistados foram questionados sobre quais planos interferem mais. Entre os oito citados, receberam mais destaque Amil (15%), Intermédica (13%) e Sulamérica Saúde (13%).

"As empresas estão impedindo que o profissional realize medicina de padrão, dificultando o atendimento. O médico não consegue realizar consultas com clareza e precisão, o que pode prejudicar a saúde da mulher", diz Maria Rita de Souza Mesquita, coordenadora da Comissão de Valorização Profissional da Sogesp.

Apesar de a pesquisa não ter abordado os possíveis danos da interferência, os médicos contam que a percepção é de que, a longo prazo, um atraso num prognóstico pode levar a uma piora da saúde da mulher.

É o caso de uma paciente que não quis se identificar. Com mioma no útero, foi informada em maio pelo médico que teria de passar por cirurgia. Ele recomendou uma videolaparoscopia, porque o tumor tinha um tamanho pequeno. O pedido foi encaminhado à operadora do plano em junho, mas a autorização só saiu na semana passada. "Nesse meio tempo, o mioma cresceu e agora vão ter de fazer cirurgia aberta", conta.

De caso ainda pior lembra o médico Paulo Nicolau, também da Sogesp. Uma grávida de gêmeos precisava de um ultrassom sofisticado. Só conseguiu autorização para um exame simples, que não diagnosticou um problema que levou os bebês à morte.

Segundo Fernandes, os resultados da pesquisa serão encaminhados para Agência Nacional de Saúde Suplementar, Conselho Nacional de Justiça, Congresso Nacional e Assembleia Legislativa do Estado. A Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia informou que pretende expandir uma pesquisa nos mesmos moldes para todo o País.

Outro lado. As três operadoras mais citadas mandaram notas à imprensa. A Amil disse que "não interfere, de maneira alguma, na autonomia dos médicos e outros profissionais de saúde".

A Intermédica afirmou que "os poucos médicos ginecologistas e obstetras credenciados nossos em consultórios próprios não sofrem a menor interferência". E a Sulamérica disse que "atua em linha com o que preconiza a Resolução Normativa n.º 259".

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