GLUPT - Caçadores do jerez perdido

GLUPT - Caçadores do jerez perdido

Poucos casos no mundo dos vinhos são tão interessantes quanto o da Equipo Navazos. Dito assim, com essa pompa, parece que é um batalhão de gente. A equipe é de duas pessoas - Jesus Barquín, professor de criminologia forense na Universidade de Granada (um pé no detetivesco ele tem, como se nota) e Eduardo Ojeda, diretor do grupo Estevez (dono de Valdespino e La Ina), com alguns agregados eventuais, e age como os Ghostbusters. Caçadores de fantasmas, só que suas assombrações são líquidas, excelentes e bem reais.

Luiz Horta - blog.estadao.com.br/luiz-horta,

25 Janeiro 2012 | 18h10

Ao longo dos cinco séculos de produção dos fortificados andaluzes, próximo do que conhecemos (a bebida tem história muito mais antiga, desde os romanos), tanto em Jerez de la Frontera quanto em Sanlúcar de Barrameda, ocorreram falências, heranças complicadas, fusões de empresas. Com isso, nas chamadas catedrais jerezanas (na verdade, galpões muito antigos com arcadas, em geral no subsolo das vinícolas) ficaram barricas esquecidas, com nomes apagados, cobertas de pó, deixadas de lado.

Os detetives da Equipo Navazos localizam tais barris (botas, em espanhol) e começam seu trabalho de farejamento. Fuçam livros de registros desbotados, notas contábeis, consultam antigos funcionários aposentados das empresas. Quando nada adianta, adivinham, provam e vão excluindo o que não pode ser, buscando o que é característico. Não é um jogo de chutes a esmo, embora haja incertezas.

Barquín é um dos maiores especialistas em jerez do mundo, consultor e articulista das melhores publicações e sites. Uma vez decidido o que é o líquido, a equipe engarrafa e põe no mercado, sempre sob o nome La Bota de... e o número. A última a aparecer foi a La Bota de Manzanilla Pasada número 30. Algumas vezes, diante da falta de certeza, lançam coisas como a de nº 26: "Manzanilla, I think", ou a nº 33, que será lançada em breve com o título de La Bota de Color Viejísimo. Há edições de 2 mil garrafas e outras de meras 300. Depende de quanto líquido restou na bota descoberta. Já teve até brandy.

O melhor é que os vinhos são espetaculares. A Manzanilla 15 foi chamada de Montrachet dos jerezes por Jancis Robinson e recebeu a incomum nota 20/20 da crítica. Além do aroma e sabor inigualáveis, não custam o que todo mundo imagina que custem. Pela de número 30 paguei 19 na La Maison du Whisky parisiense. Provar quase uma dezena das Botas é um acontecimento raro e foi uma das melhores degustações de que participei no fim do ano passado.

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