Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

Glupt! - Muito vinho para pouco crítico

Mais uma Expovinis no currículo. A feira, cada vez maior, é a mais importante da América do Sul, o que justifica a presença de centenas de produtores de vinhos e de muita gente. Digo muita gente porque para mim mais de dez pessoas é comício. Sofro bastante para sair do meu protegido espaço de degustador - uma mesinha, 12 taças na frente - e enfrentar a multidão. Muita gente me assusta, ainda que seja um público feliz, de taça na mão, festejante das alegrias trazidas pelo vinho. Consigo avançar, tropeçante. Não reconheço pessoas que me cumprimentam efusivas e não sou reconhecido por outras tantas que saúdo como velhos amigos. Mas, em nome do vinho, persevero. Sei provar em condições ideais de temperatura e pressão, como se diz na química e na física, em silêncio e concentração.

Luiz Horta,

25 Abril 2012 | 22h18

Foi com grande alívio que vi de longe José Alberto Zuccardi, o energético produtor argentino, que conheço há décadas. Nadei até ele e me senti um náufrago atingindo uma ilha. Na verdade, pela quantidade de entusiasmo e de novidades que ele sempre tem para contar, Zuccardi é um continente. Não sabia se prestava atenção nele ou se tomava notas. Fui de primeira opção e tentei guardar as novidades de memória. Algumas achei fascinantes: a abertura de novo restaurante na Bodega em Mendoza, dedicado a comida com os azeites que produz. A versão do Malamado, o fortificado, feito de Torrontés pelo sistema de solera, num estilo mais parecido com os vinhos fabulosos de caráter oxidativo da denominação de Maury, no sul da França, algo entre o Madeira e o Porto.

No meio da conversa fui apresentado a Sebastiano Rosa, da Agricola Punica, de quem provei um vinho feito na Sardenha, o Barrua. Continuei tranquilamente falando com ele em espanhol, sem me dar conta de que é italiano. Aliás, falei espanhol com os portugueses do Douro, Cristiano van Zeller e Sophia Berqvist da Quinta de la Rosa (que nem é portuguesa, mas inglesa). Sempre achei que quando ficasse velho falaria esperanto, mas pelo visto minha língua será a uma espécie de portunhol com sotaque francês. Nesta altura (e cuspi, juro) já nem sabia bem em qual stand estava. Consegui localizar no mapa onde ficava Pizzato, porque queria rever e voltar a provar o Chardonnay com madeira que provara no Vale dos Vinhedos. Flávio Pizzato é uma versão de Zuccardi, muita energia e muitas ideias.

De lá encontrei Miguel de Almeida, enólogo do meu estimado Quinta do Seival Castas Portuguesas e provei, agora engarrafado, o Alvarinho 2011 da região da Campanha. Um vinho fantástico, floral, cheio de tipicidade, fruto de mero 1 hectare.

Tanta gente animada e eu murchando, não sei ficar de pé, e sou um pouco violeta de estufa. Lembrei-me da fórmula de meu ídolo, o pianista canadense Glenn Gould, maior intérprete de Bach de todos os tempos: para cada número de horas passadas em público são necessárias outras tantas dedicadas à solidão e ensimesmamento. Ele exagerava e sua proporção era de 1 para 3, cada hora sociabilizada significava o triplo enfurnado em casa. Não sou tão bicho do mato, mas dei o dia por findo e me retirei para um período de reflexão, nome bonito para pernas para cima em casa. E ainda faltavam uns 40 stands e o tema das malfadadas salvaguardas.

 

Preciso reconhecer que das inúmeras edições da feira que visitei a deste ano foi a melhor, pelo menos no seu primeiro dia, reservado a especialistas e comerciantes. Rápida reposição de taças, ambiente climatizado, corredores amplos, que foram se enchendo com o passar das horas, mas permitindo andar.

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