Luiz Horta/AE
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Glupt! O mundo educado dos dois Torres

Hoje vou falar de vinhos, ou antes, de gente. Miguel Torres, o filho, é do mesmo terroir do pai, o produtor ícone catalão. Climat de pessoas finas. Ambos, Torres pai e Torres júnior, agem como uma família real do vinho, dando a impressão de que a bebida é secundária em relação ao hedonismo, algo que para mim é fundamental.

Luiz Horta,

27 Outubro 2011 | 15h39

Não escondo que um dos vinhos de que mais gosto é produto deles, o Mas la Plana, Cabernet curioso, extraído de região tradicional de cava, o Penedés. Don Miguel Torres, obstinado e detalhista, parece com outro homem de aço revestido de veludo, Nicolás Catena. Pessoas que mudam regiões.

Em recente escala no Chile, vindo de Mendoza, não resisti e fui até Curicó conhecer a vinícola chilena da família, provar todos os vinhos e almoçar no ótimo restaurante que fica na bodega. Era um dia gelado e duas doses de brandy 20 anos, servido aquecido, foram um eficaz lubrificante de alma.

Miguel falou com entusiasmo da empresa chilena (a irmã Marimar toca a divisão californiana dos Torres e o pai gere tudo, na Catalunha). Preferi não tocar no assunto que já frequenta sites e blogs de vinhos: a sucessão familiar. Don Miguel atinge, ano que vem, a idade que estabeleceu para sua aposentadoria. Para meu alívio, Miguel júnior introduziu o assunto: "Nada está decidido, mas meu pai vai se afastar pro forma, você o conhece, ele não vai parar, não é o jeito dele", riu.

Enquanto comíamos, galinhas ciscavam do lado de fora. Miguel estava encantado com elas. Seu projeto mais querido é o de harmonia natural, com uma agricultura sustentável. "Estamos aqui de empréstimo, quem fica é a natureza. Somos a estética enganosa das nuvens."

Os vinhos Torres chilenos mantêm o mesmo padrão dos espanhóis. São muito bebíveis, amigáveis, têm complexidade e qualidade em todos os níveis de preço. Raras empresas com produção tão grande e em tantos terroirs (Penedés, Rioja, Priorato, Ribera del Duero, Chile, Califórnia) conseguem manter valor em todas as garrafas.

Voltei dormindo gostosamente para Santiago, como se tivesse passado o dia numa bolha de boas maneiras e prazer, um microclima de fineza cada vez mais raro.

Os vinhos provados

Na prova dos vinhos de Miguel Torres reencontrei companheiros do dia a dia, como os espanhóis Viña Esmeralda (R$ 46) e Viña Sol (R$ 43), que há tempos garantem bons brancos na minha mesa, sem ser escalpelado pelo preço. Mas quero falar sobre os chilenos da vinícola, que não conhecia.

Santa Digna,

A linha mais básica, tem Chardonnay, Sauvignon Blanc, Gewurztraminer, Cabernet, Merlot, Syrah, Carmenérè e Malbec, todos entre R$ 45 e R$ 50. Gostei bastante do Gewurz, com aroma de lichia bem típico, bem floral, ótima acidez. Outro destaque foi o Chardonnay, fermentado em aço e sem nada de carvalho. Bem fresco e elétrico (não faz malolática), para beber sem grandes rituais.

A Cordillera

está um pouco acima. De novo o Chardonnay encantou. Fermentado em barrica, que não se nota no nariz, mas dá corpo na boca, é fino e equilibrado (R$ 67). O Syrah, que leva um toque de Viognier, num estilo do Rhône (há enormes controvérsias, mas acho atrevido fazerem isto no Chile) é encorpado, denso, brilhante, muito bom (R$ 87). E o melhor de todos, o Carmenérè, sintonizado com a nova abordagem para a uva problemática, tem zero pimentão verde e muita fruta madura, leva um pequeno porcentual de Petit Verdot, que faz diferença, dando vivacidade e boa acidez ao corte, muito bom (R$ 87). Provei também os tops. No caso a palavra top se justifica muito além de preço.

Manso de Velasco 2007

(cuja garrafa ilustra a coluna) é um dos melhores vinhos chilenos que já tomei e, provavelmente, o mais instigante Cabernet Sauvignon do país. Aula Torres de tratamento da Cabernet. Tem taninos macios e bem trabalhados, acidez no lugar, fruta em evolução, é austero e alegre, sem exageros: é sensacional. Não é barato (R$ 192), mas aguentará longa guarda e só vai ficar melhor.

Conde de Superunda

está acima do Manso Velasco em preço. Provei o 2004 (R$ 240), ícone da vinícola, um corte hispano-chileno de Tempranillo, Monastrell e Carmenérè. É um belo exemplo do que o terroir chileno pode. Provado às cegas deixaria uma enorme interrogação, tem os aromas de tabaco da Tempranillo, mas o toque balsâmico da Carmenérè e o oleoso e ferruginoso que encontro na Monastrell (ela é a Mourvédre na França). É muito bom, mas ainda fico com o Manso de Velasco, meu Mas la Plana chileno de agora em diante.

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