Luiz Horta/AE
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Glupt! - O Vale dos Vinhedos ganha as alturas

Foram 166 vinhos, de 22 vinícolas, degustados em três dias. Como fazia um calor explosivo, sol fumegante, 38 graus em um dos dias, foi puxado. Mas a qualidade dos vinhos compensou.

Luiz Horta,

14 Março 2012 | 18h51

Não tenho furores nacionalistas. Vinho bom é bom, ponto, seja de que lugar venha. Mesmo assim, há a alegria de poder elogiar francamente o que acontece com o vinho brasileiro. Houve vinhos simples e complexos, longos ou ligeiros, com potencial de guarda e para beber logo. Claro, houve também o meu gosto, vinhos que eu prefiro e outros que não são o que teria em casa, embora tenha que julgá-los com objetividade.

A grande novidade é que os defeitos que sempre associei aos vinhos brasileiros desapareceram. Nenhum - e ressalto - nenhum das quase duas centenas de vinhos, tinha bretanomices, aquele cheiro de porco molhado num estábulo, resultante de uma levedura que contamina o ambiente ou aparece em tonéis mal limpos e reutilizados além de sua vida útil. E nada dos terríveis taninos secantes e amargos que tanto infernizaram a vida dos líquidos da região, fruto do amadurecimento incompleto, das sementes verdes, da colheita apressada por causa das chuvas.

O vinho brasileiro investiu em tecnologia, refinou a feitura, aprendeu a manejar o vinhedo de forma equilibrada e diminuiu o uso de carvalho. Manteve, em alguns casos, uma charmosa rusticidade camponesa: as vinícolas são familiares e souberam crescer sem perda de autenticidade. Tecnologia não significa robotização e produção industrial. Quer dizer apenas uso de equipamentos melhores.

As novas gerações, representadas por Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia, o animadíssimo André Larentis, dos Vinhos Larentis, e o brilhante Daniel Dalla Vale, enólogo chefe da Casa Valduga, que aparece na foto tirando uma amostra do recém-fermentado Pinot, foram à escola de enologia e, sobretudo, se expuseram às influências do exterior. O pior vício é o ensimesmamento, acreditar que seu vinho é o melhor do mundo e desconhecer ou ignorar propositalmente os demais.

O novo produtor brasileiro viaja, experimenta e compara, participa de feiras, estagia na Califórnia, na Borgonha, na Toscana, nos vizinhos, não tem medo de influências e comparações. Não é mais Tutu Caramujo cismando na porta da venda. O resultado está aí, bons vinhos. É preciso conhecer bem o mundo para conhecer melhor sua aldeia. Foi Fernando Pessoa que disse? Não me lembro.

Outro grande fantasma que rondava a região era a tentativa de emular o estilo de Argentina ou Chile, fazer vinhos concentrados demais, com muito carvalho, pesados, alcoólicos, sendo que os próprios já abandonam esse estilo. Finalmente, os gaúchos perceberam que seu clima serrano parece mais com o de algumas partes da Europa vinífera que com o estável e previsível clima das regiões andinas. O Brasil vinícola descobriu o Brasil. Eu descobri o Brasil. Falta o consumidor descobrir seus vinhos e bebê-los sem preconceitos.

Nunca tinha visitado o Vale dos Vinhedos e confesso que esperava uma provação mais que uma prova, algo infindável e castigante. Voltei querendo mais.

Como o clima foi muito favorável este ano, sem chuvas na colheita, muito sol, calor de dia e frescor de noite, a safra 2012 foi generosa. Os vinhos já prontos mostram as qualidades. Dos 166 vinhos, cerca de 60 provei em barrica, alguns já deste ano, incrível a sua consistência, equilíbrio e tipicidade. O verão amigável permitiu uvas saudáveis na sua plenitude de amadurecimento. Encontrei vinhateiros sorridentes, encantados com a matéria-prima que a natureza lhes deu. Alguns ainda colhiam.

Como seria impossível contar aqui tudo que provei, escolhi alguns destaques. Deixei de fora os Merlots, contemplados com o selo da novíssima Denominação de Origem Vale dos Vinhedos. Ficam para uma próxima coluna.

E como bebi muitas novidades, conto abaixo algumas delas, que serão lançadas em abril durante a feira Expovinis. Foram provados em primeiríssima mão pelo Paladar. Diversos deles não têm rótulo.

Perfeito vinho antigo

Na Don Laurindo, corredores da adega guardam garrafas empoeiradas de todas as safras da empresa. No meio delas, uma em destaque, autografada. Reconheci a foto do homenageado: Alain Ducasse. Meu anfitrião, o filho caçula da família, Moisés Brandelli, contou que o chef superestrelado provou o vinho em Paris e gostou muito. E me surpreendeu: “Escolha uma garrafa para provar”. Fiquei bom tempo sofrendo, tantas opções... Elegi o Assemblage 1999, corte de Tannat, Merlot e Cabernet Sauvignon. Sempre o desarrolho de uma velha garrafa é dramático. E se o vinho estivesse morto ou estragado? Estava fantástico, evoluído, acidez vivaz, cor já atijolada. Foi a única garrafa que bebi de verdade, engolindo, aproveitando a generosidade e, claro, bem emocionado. 

Alguns dos meus destaques

Não é simples eleger favoritos no meio de tantos vinhos. A lista está aqui, na ordem em que foram provados, não de preferência.

1.Tributo Tempranillo 2010, da Marco Luigi, sem madeira, com muita fruta e bom de beber.

2. Barbera 2010, da Angheben, velho favorito que nesta safra retoma a concentração, ausente na última safra que provei.

3. Era dos Ventos Peverella, da Vallontano, amarelo-escuro, de uma uva obscura, com traços ajerezados que me agradaram muito.

4. Chardonnay Cuvée Giuseppe 2009, da Miolo, com carvalho destacando-se, mas com estrutura para aguentá-lo, fino e elegante.

5. Um vinho sem nome e sem rótulo da Milantino, feito por passificação das uvas, que mistura Merlot, Ancellota e Tannat e é delicioso de beber, feito mais para consumo próprio pelo simpático e animado caçador de perdizes Luiz Milani.

6. Tannat 2007, da Torcello, estilo franco e equilibrado, moderno, sem exageros.

7. Concentus 2006 da Pizzato, delicioso e sério corte de Merlot, Tannat e Cabernet Sauvigon assinado pelo talentoso FlávioPizzato.

8. O sensacional Syrah 2011, provado em barrica, da nova vinícola boutique Alma Única, um vinho que vai dar o que falar.

9. Marsellan 4ª Geração, da Dom Cândido, floral, mineral, fácil de beber e perfeito para acompanhar comida. A Marsellan desponta como variedade bem adaptada na região.

10. Mérito Gran Reserva 2008, da Larentis. Nariz atraente de alcatrão, longo, equilibrado e muito elegante, corte de Merlot, Cabernet, Marsellan e Ancellota.

11. Um raro Cabernet Franc, uva que acho tão boa na região, o Pequenas Partilhas 2009, da Aurora. Tem tipicidade e é muito bom de beber.

12. Identidade Arinarnoa 2008, da Valduga. Nunca tinha ouvido falar na uva. Taninos bem presentes, bem finos, veio do Madiran, como a Tannat, e agrada aos entusiastas da uva basca francesa, como eu.

13. Elos Cabernet-Malbec 2008, da Lídio Carraro. Ótima boca, carnudo, mas elegante. De Encruzilhada do Sul.

14. Marsellan 2009, da Terragnolo, fruta exuberante, acidez média, bem longo na boca, alegre e austero ao mesmo tempo.

15. Ouro Negro Merlot 2005 da Calza, gostoso e benfeito, bom de boca e fácil de beber.

Onde comprar

Achar vinhos brasileiros é menos fácil que parece ou deveria ser. As maiores empresas têm boa distribuição em supermercados, algumas trabalham com importadoras, caso da Valontano e Angheben. Todas vendem por seus sites, com frete para São Paulo. Um ótima ideia foi a criação da loja virtual www.vinhoevinhos.com, com grande variedade de rótulos. 

Lançamentos

O que vem para a Expovinis

O vinho que mais me surpreendeu, entre todos os lançamentos planejados para a Expovinis, que ocorrerá de 24 a 26 de abril, no Expo Center Norte, em São Paulo, foi um Quinta do Seival da Miolo. Mas não se tratava do meu querido Castas Portuguesas em nova safra e sim de um Alvarinho 2011, branco para completar a vocação portuguesa da divisão da Miolo na Campanha. O enólogo Miguel de Almeida, que apresentou uma vertical do Castas Portuguesas no Paladar - Cozinha do Brasil do ano passado, caprichou. As uvas são colhidas na fronteira e levadas em caminhões refrigerados para serem vinificadas em Bento Gonçalves. Fermentadas em barricas novas, ainda bem presentes no vinho, que quando engarrafado, pela boa estrutura, vai se equilibrar. Intensamente floral no nariz, muito fácil de beber, vai ser um belo vinho em pouco tempo. A Miolo vai mostrar um Gewürztraminer, de boa extração, com boa boca. E um Syrah do Vale do São Francisco, o Testardi 2010, com as características mais quentes e maduras dos vinhedos do Nordeste. 

A Pizzato ousou passar parte de seu adorável Chardonnay 2011 por carvalho. Tremi. O Chardonnay Pizzato sem madeira está na minha lista de favoritos. Mas a madeira é muito sutil, barricas francesas curtidas com água quente e não queimadas. O frescor está intacto e ganhou apenas um pouco de corpo e complexidade. Muito bom. 

A Aurora apresentará seu Chardonnay da região de Pinto Bandeira, fermentado em inox, grande expressão de fruta e tipicidade, curta passagem de três meses por carvalho.

Finalmente, a Valduga mostra o Gewürztraminer que provei do tanque de inox. Quando tocou a taça, liberou tamanho aroma de flores brancas que fiquei inebriado. Já é muito bom na boca, embora nem tenha sido engarrafado. Vai repetir a tradição de qualidade da empresa com a variedade.

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