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GLUPT - Para cá de Marrakesh

Nem todas as viagens são engarrafadas, algumas acontecem fisicamente. Estive em Tânger, no afastado ano de 1985. Comi num restaurante medíocre, indicado pelo concierge do hotel meio espelunca em que fiquei (era mochileiro, essa palavra horrível, mas tinha pretensões, não fiquei em albergue, mas em algo que se dizia hotel, pelo menos na placa). Era tão enfurnado na medina, o bairro velho e labiríntico da cidade, com vielas sem nome, que corri o risco de nunca ter voltado do jantar.

Luiz Horta - blogs.estadao.com.br/luiz-horta,

29 de fevereiro de 2012 | 19h18

No restaurante comi cuscuz de frango e um tinto local, detestável, amargo, com um rótulo estilo Bordeaux, château-algo. As coisas muito ruins são tão inesquecíveis quanto as boas, como se vê pela precisa lembrança que tenho disso tudo.

Muitas uvas fermentadas se passaram até saber que a World Wine importa um vinho marroquino. Entre curioso e temeroso, fui prová-lo. Não podia julgar o país apenas por minha tropeçada juvenil no exotismo.

O vinho, Syrocco (R$ 86, World Wine, tel.: 3383-7477 ), é assinado por um tal Graillot. Alain Graillot? A memória soou um alerta ao ler o nome. E era ele mesmo, o produtor do Rhône, que tirou a apelação Crozes-Hermitage do anonimato. Um Syrah marroquino, feito por um dos grandes artesãos da casta, deixa de ser só uma curiosidade e passa a ser um vinho de verdade. Seus vinhos foram minha escola da tipicidade da Syrah, perfumada pelo exuberante aroma de pimenta recém-moída no nariz.

Marrocos já foi, com a Argélia, a origem dos vinhos de garrafão que abasteceram a França, disfarçados como sendo do Languedoc, feitos de Carignan. Mesmo com esse passado, nada dos pontos de vista geológico e geográfico dizia que não poderiam fazer vinhos sérios.

Foi o que Graillot descobriu, num oásis chamado Ben Slimane a 40 km de Casablanca e 600 metros de altitude, clima ameno com noites frias. A história está no box ao lado, com a explicação do rótulo. E a prova está na taça. O Syrocco é cheio de fruta estilo Novo Mundo, num primeiro momento. Depois de uma hora aberto, mostra grande tipicidade, aparece a assinatura Graillot, a pimenta-do-reino no aroma, corpo e a acidez suculentos na boca.

*** Syrocco

Domaine des Ouled Thaleb

Boa fruta madura no nariz que com o tempo se transforma em típico aroma de Syrah bem francesa, apimentado e carnudo. Na boca é intenso sem ser pesado, boa acidez e taninos macios. Muito fácil de beber

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