Gol campeão

E domingo tudo acaba, ainda que reste a derradeira rodada para as definitivas colocações. Mas a espera acaba (embora eu mesmo continue esperando o que não vi, não li, não entendi por que não apareceu, não aconteceu). Esperar é algo que a gente tem que se virar pra saber, aprender a sossegar pra não endoidecer - e as coisas que a gente não inventa pra se distrair quando tem que aguardar? Pois bem, assim morreu para uma parte dos torcedores o sonho de chegar ao topo da tabela, no dia 29 de novembro, domingo último. Mas, para outros, não. Esses poucos mas muitos outros entraram com grande expectativa e ansiedade nesta semana corrente, acreditando que o grito de campeão brasileiro poderá finalmente desengatar de suas gargantas desacostumadas e ressequidas.

Nando Reis, nandoreis@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

03 Dezembro 2009 | 00h00

Uma chuva de gols balançou as redes dos estádios brasileiros durante duas das horas da tarde do último domingo. Gols abundantes selaram a sorte de alguns desabonados pretendentes, afundaram a nau de outros tantos infelizes navegantes, saciaram com águas bastas uma multidão radiante de sedentos, reanimaram as almas lançadas à penúria dos descrentes, realizaram a vingança dos desleixados em fiascos insolentes, provocaram o desmoronamento de ilusões inapetentes, revelaram na pálida hora a morada dos invejosos praticantes e uma turba ruidosa pode sambar descalça na calçada cinza que contorna em borda a grande algazarra da avenida.

A frustração é uma dor amarga de suportar. Ela vem na contramão da esperança, é o fim da linha que desenhava infinito brilho de glória e de conquista, um lugar escuro para os lamentos que em silêncio povoam a mente efervescente dos encasquetados, não com excitação, mas com desapontamento. A realidade tem a força de mil vulcões explodindo, não há lágrimas que possam conter as lavas escorrendo, queimando, descendo do alto da cratera para atingir a planície repleta dos objetos desaparecidos. Ninguém é feliz quando tem o seu sonho roubado. Mas é assim que nascem os novos desejos.

Estava falando da chuva de gols do fim de semana. Mas é preciso fazer uma ressalva e falar de um gol específico - o gol de Diego Souza. Precisei rever muitas vezes e ver por tantas câmeras distintas para poder absorver toda a beleza, a grandeza daquele tirambaço desferido lá dos cafundós do meio campo para enfiar ali no ínfimo espaço que sobra entre a trave rente, a bola gol adentro, além da risca. Um gol incomum, inesperado, tão difícil que parecia quase impossível que um dia por alguém viesse a ser feito, ser imaginado. Um gol carregado de ousadia, despelado de hesitação. Na verdade aquela bola não permitia dúvida, sequer havia tempo para pensamento, embora não contivesse o gesto de seu movimento nada que fosse pressa intuitiva, foi nada casual a violenta pancada certeira pura astúcia. Só mesmo a certeza de que a bola deveria alcançar o fundo das redes poderia promover esse lance magistral. A altura alcançada pela esfera, a fúria do pontapé brutal e sinuoso, a raiva contida na urgência do arco-desenho viagem-da-pelota, o desabafo da injúria alviverde pelos pontos perdidos, o desagravo da raiva do título perseguido e talvez dessa vez não obtido distante?

Quando, de noite, encontrei com o namorado de minha filha que voltava do jogo que havia assistido no Palestra Itália, olhei para ele com certo encanto admirável, pensando: "Você testemunhou um dos gols mais lindos que já foram feitos!" O time que levará o título ainda não temos. Mas o gol campeão, pra mim, já é esse!

P.S. O artigo que não saiu na semana passada está postado em meu site: www.nandoreis.com.br.

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