Governador Valadares agora tem imigrantes

Crise levou brasileiros que casaram com estrangeiros a voltar à cidade

Ivana Moreira, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A crise econômica nos Estados Unidos, que fez milhares de imigrantes brasileiros embarcarem de volta para casa, provocou também reflexos curiosos como a imigração de estrangeiros para o País. Representantes de diferentes nacionalidades estão desembarcando nas cidades do médio Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, região que ganhou fama como o maior pólo de exportação de mão de obra brasileira para os EUA. Cidadãos de países tão diferentes quanto Filipinas e Suíça, além dos Estados Unidos, estão chegando em companhia dos imigrantes brasileiros com os quais construíram famílias lá fora. E trazem na bagagem a esperança de levar, no Brasil, uma vida mais tranquila e feliz.

"A situação está cada vez pior no meu país e, para os Estados Unidos, só quero ir para passear", conta a filipina Janet Baladjay Arruda, de 42 anos, que casou-se com o microempresário Paulo Arruda, de 49. O valadarense conheceu sua segunda mulher quando construía piscinas na Flórida e veio com ela para o Brasil há dois anos. Grande parte da família de Janet é imigrante nos Estados Unidos. Como o Brasil, as Filipinas viram um grande número de habitantes emigrar para os EUA. Mas, a cada telefonema, as notícias da família Baladjay para Janet são menos animadoras. "Eles apenas sobrevivem nos Estados Unidos", diz Janet num português bastante compreensível.

Ao contrário da irmã, que enfrenta preconceito e dificuldade financeira nos Estados Unidos, Janet leva uma vida tranquila em Valadares. O casal mora numa confortável casa recém-construída no Vila Rica, bairro pacato de classe média. Eles vivem da locação de quatro tratores que Arruda comprou com o dinheiro que juntou em mais de cinco anos nos Estados Unidos. Ele desembarcou nos EUA pela segunda vez em fins de 2002. E agora pensa em ampliar o negócio de locação.

"Antes, para comprar um trator, era uma dificuldade, o valor da entrada era enorme e o prazo para pagar, curto", conta ele. Arruda diz que a oferta de crédito, com taxas menores e prazos mais longos, é uma das boas surpresas que encontrou no retorno. "Estou melhor aqui." Ele tem um filho de 21 anos, do primeiro casamento, que ainda está nos Estados Unidos, trabalhando como instalador de TV a cabo. E as notícias que recebe dele não são melhores que as da família de Janet. "Ele também está querendo vir para o Brasil, mas tem mulher lá e, para vir, terá de convencê-la."

O suíço Hans Rüsi, de 48 anos, é outro que escolheu Governador Valadares para morar, em 2007, por causa da mulher, a agricultora Márcia Rüsi, de 38. "Os negócios no Brasil são mais difíceis do que esperava, mas não me arrependi, tenho uma paz e uma felicidade que não tinha lá", afirma, em alemão. Em um sítio a 30 km do centro de Valadares, Rüsi e a mulher, com quem tem dois filhos, trabalham no plantio de legumes e frutas sem agrotóxico.

"Na Suíça, as pessoas vivem muito isoladas", afirma Márcia. Voltar a morar na Europa, garante ela, está fora de questão. Filha de lavradores, Márcia, como quase todos os jovens de Valadares, sonhava fazer a vida nos EUA. Mas não conseguiu entrar no país. Resolveu apostar na Europa - rota alternativa para valadarenses barrados na alfândega americana - e acabou na Suíça, trabalhando de babá. O marido suíço, diz ela, foi praticamente a única coisa boa que aconteceu por lá. O dinheiro que ela esperava encontrar, não viu nem de relance.

O "brazilian way of life" também foi a motivação que levou a americana Manara Rocha, de 20 anos, a trocar os shoppings americanos pela pracinha de Governador Valadares, no ano passado, quando o agrônomo brasileiro Paulo Rocha a pediu em casamento. "Os americanos podem até ter mais dinheiro, mas são menos felizes", diz ela. Filha de imigrantes brasileiros que foram para os EUA na década de 80 - e que agora também vivem em Valadares -, ela cresceu falando inglês, convivendo com americanos, mas diz que nunca se integrou completamente. Não teve um único namorado americano. Só reclama do baixo salário que recebe trabalhando no comércio, da falta do carro e confessa que sente saudade dos shoppings.

ESPERANÇA

Segundo a professora Sueli Siqueira, da Universidade do Vale do Rio Doce (Univale), a exposição positiva que o Brasil - o país que será a sede da Copa e da Olimpíada - vem tendo no exterior contribui para alimentar as esperanças dos imigrantes brasileiros e também de seus parceiros estrangeiros em relação ao projeto de uma nova vida com salários em real. Sueli estuda a emigração na região desde 1998 e conclui uma pesquisa com foco no retorno dos imigrantes.

As notícias positivas sobre o Brasil contribuíram para a decisão da advogada Helena Abreu Murray, de 58 anos, de voltar para o País com o marido americano, que perdeu o emprego. "Nos Estados Unidos não conseguimos mais ver um horizonte", diz Helena, que viveu dez anos lá e voltou há dois meses.

Embora não seja difícil encontrar exemplos de estrangeiros imigrando para o Brasil com seus parceiros, Sueli acredita que o movimento é pontual e nunca chegará a volumes expressivos. Assim como faltam estatísticas sobre a emigração, quase sempre ilegal, dos mineiros para os Estados Unidos, faltam números sobre a volta dos brasileiros e a recente imigração de estrangeiros.

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