Governo admite rever obras 'não essenciais' da Copa de 2014

Secretário-executivo do Ministério do Esporte diz que soluções alternativas já são estudadas.

Jefferson Puff, BBC

14 Março 2012 | 15h21

Apesar de manifestar confiança de que estádios e aeroportos estarão prontos para a Copa do Mundo 2014, o governo federal já admite rever obras "não essenciais" e sinaliza estar buscando "atalhos" para acelerar os preparativos.

Sem definir quais seriam as obras que não inviabilizam a realização dos jogos caso não fiquem prontas a tempo, o número dois do Ministério do Esporte, secretário-executivo Luis Fernandes, reconheceu em entrevista à BBC Brasil que adaptações e substituições já estão sendo analisadas.

O projeto geral da Copa ganhará revisão em abril, quando faltará pouco mais de dois anos para Mundial. As mudanças ocorrem em meio a uma crise com a Fifa e à renúncia de Renato Teixeira do comando da CBF e do Comitê Organizador Local (COL).

"Não há motivos para duvidar do sucesso da Copa do Mundo. Estamos absolutamente confiantes de que os jogos serão realizados. No entanto, estamos estudando possibilidades de substituição e adaptação de algumas obras que podem não ficar prontas a tempo", disse Fernandes.

O secretário-executivo adiantou que o governo irá analisar, em abril, todas as obras inicialmente previstas na Matriz de Responsabilidades. Os projetos serão analisados individualmente e serão feitas propostas para acelerar os trabalhos.

O anúncio da revisão chega duas semanas após o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, ter dito que o Brasil precisava de um "chute no traseiro" para acelerar as obras. "Não entendo por quê as coisas não estão andando", disse no início de março.

A declaração causou uma crise entre o governo e a entidade que regula o futebol mundial e levou seu presidente, Joseph Blatter, a marcar uma reunião extraordinária com a presidente Dilma Rousseff. Os dois se encontram na próxima sexta-feira para retomar as relações.

Estádios e aeroportos

Dos 12 estádios em construção ou em reforma, apenas cinco já têm mais de 50% do projeto concluído. Em três arenas, as obras estão abaixo dos 30%, entre elas a do Itaquerão, em São Paulo, que deve ser palco da cerimônia de abertura.

Segundo a Controladoria Geral da União (CGU), dos R$ 6,6 bilhões de investimentos previstos para os estádios, R$ 5,4 bilhões já foram contratados e R$ 1,4 bilhão foi executado.

Quanto aos 13 aeroportos que devem passar por obras de ampliação e reformas, a Infraero (estatal que administra os aeroportos) destaca a conclusão das obras do novo terminal do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Os dados da CGU mostram, no entanto, que o avanço é lento.

De R$ 6,5 bilhões previstos pela Matriz de Responsabilidades como necessários para modernizar o setor, apenas R$ 1,4 bilhões já foram contratados e somente R$ 195 milhões já foram executados.

'Atalhos'

Gil Castello Branco, fundador e secretário-geral da ONG Contas Abertas, com sede em Brasília, avalia que o Brasil será capaz de realizar a Copa, mas que "isso vai depender, no entanto, de uma grande dose de improviso".

Alguns destes "improvisos" foram incluídos na Lei Geral da Copa, que ainda aguarda aprovação final no Congresso antes de ser sancionada pela presidente Dilma Rousseff.

Entre eles estão a possibilidade de declarar feriado em todas as cidades que sediarão jogos e a reorganização do trânsito (com mudança das mãos) em grandes avenidas para facilitar a ida aos estádios.

Para os críticos, tais medidas visam compensar a ausência de obras cruciais de infraestrutura de transportes, o que também compromete a expectativa de um legado pós-Copa para os brasileiros.

"Talvez o turista estrangeiro nem perceba, mas muita coisa vai ser feita de última hora. Se as obras não ficarem prontas a tempo, o governo vai colocar em prática seus planos B, C e D", diz Castello Branco, acrescentando que os aeroportos devem ser o principal desafio, já que o setor não permite grande margem de "improviso".

Lei Geral

Para o secretário-executivo do Ministério do Esporte, Luís Fernandes, a expectativa é de que a legislação, que determina as bases para a Copa e ratifica os acordos já assinados entre o governo e a Fifa, seja aprovada rapidamente, mesmo em meio a questões polêmicas como a venda de álcool nos estádios e a meia entrada para idosos - ambas já aprovadas pela Comissão Especial na semana passada.

De acordo com críticos, no entanto, a legislação já está atrasada e os debates e trocas de farpas com a Fifa, que não demonstra intenção de ceder, arrastam ainda mais os preparativos para os jogos.

"Se o Brasil se comprometeu com isso, agora tem que cumprir. Há consenso de que não é mais a hora de discutir, é preciso aprovar", avalia Castello Branco.

Na África do Sul, país que sediou o Mundial em 2010, a legislação da Copa foi aprovada cinco antes antes do início dos jogos.

Corrupção

Alvo de uma série de acusações de corrupção, Ricardo Teixeira abandonou nesta semana o comando da CBF e do Comitê de Organização Local, após 23 anos à frente do futebol brasileiro.

Sua saída despertou a expectativa de que um avanço no diálogo entre CBF, Fifa e o governo brasileiro, uma vez que a relação de Teixeira com a presidente Dilma Rousseff e com a cúpula da federação internacional de futebol vinha se deteriorando cada vez mais.

"Estamos falando de um país com dificuldades de planejamento a médio e longo prazo, e manter pessoas sem uma ficha limpa e sem a confiança do governo em posições de liderança só torna as coisas mais difíceis", diz Caio Magri, diretor do Instituto Ethos, entidade ligada à ONG Transparência Internacional.

Mas, na prática, Magri avalia que José Maria Marin, de 79 anos, escolhido como sucessor de Teixeira, não deve apresentar estilo muito diferente de liderança. "Pode haver uma mudança de humor, mas os interesses são os mesmos", diz o pesquisador.

Para Luís Fernandes, o relacionamento do governo com a CBF e o COL não deve sofrer alteração. "Nossa relação é firmada em bases institucionais, e não pessoais". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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