Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

Governo amplia faixa etária para doação de sangue

Idade mínima passa de 18 anos para 16 e máxima, de 65 para 68 anos; restrição a homossexuais masculinos é mantida e vira alvo de críticas

Lígia Formenti / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2011 | 00h00

O Ministério da Saúde ampliou ontem a faixa etária para doação de sangue no País com objetivo de ampliar o volume de bolsas coletadas. No entanto, foi mantida uma restrição relacionada à doação por homossexuais masculinos. Especialistas ouvidos pelo Estado criticaram a decisão.

De acordo com o novo Regulamento Técnico d e Procedimentos Hemoterápicos, a idade mínima para doação, que antes era de 18 anos, passa a ser de 16 - desde que o doador apresente autorização dos pais. O limite máximo foi ampliado de 65 para 68 anos. Com a mudança, o governo espera ampliar o volume de sangue coletado no País, atualmente de 3,5 milhões de bolsas anuais. O ideal, de acordo com padrões da Organização Mundial da Saúde, seria de 5,7 milhões de bolsas.

Embora o texto afirme que a orientação sexual não deve ser usada como critério para seleção dos doadores, foi mantida a restrição existente na norma anterior: homens que fazem sexo com homens somente podem doar sangue 12 meses depois da última relação.

"Na prática, portanto, a situação não mudou. O que há, apenas, é a determinação para que homossexuais sejam acolhidos de forma adequada no sistema de triagem", diz o coordenador nacional da política de sangue e hemoderivados do Ministério da Saúde, Guilherme Genovez. Em outras palavras: não é o fato de ser gay que poderia motivar uma eventual recusa à doação de sangue, mas o fato de ter ocorrido uma relação sexual considerada de risco elevado. "É o mesmo princípio que existe para quem faz tatuagem. É preciso aguardar um período para que ele possa novamente fazer a doação. É um critério técnico para assegurar a segurança do sangue usado nas transfusões no País."

O cuidado visa a garantir a qualidade de sangue e evitar a janela imunológica, ou seja, o período em que exames laboratoriais não conseguem identificar a presença do vírus HIV ou de hepatite em amostra de sangue de uma pessoa infectada. Isso acontece porque o teste comumente usado nas bolsas de sangue identifica anticorpos produzidos pelo organismo e não o vírus propriamente dito.

"Homens que fazem sexo com homens têm risco 18 vezes maior que a população em geral de ter HIV. Isso não pode ser desconsiderado no momento da doação de sangue", diz Genovez.

Embora reconheça que o risco entre homossexuais masculinos seja maior, o infectologista Esper Kallas é contra essa restrição. "Seria melhor levar em conta o comportamento de risco como um todo, seja ele entre hetero ou homossexuais. Essa avaliação deve acontecer caso a caso", afirma. Essa também é a opinião do infectologista André Lomar.

Novo teste. Atualmente, a janela imunológica para aids é de 21 dias, contados a partir da data da infecção, e de 60 dias para hepatite. "Esses números vão mudar", afirmou o ministro Alexandre Padilha. Com atraso de mais de um ano, o governo iniciou o uso de uma tecnologia que, em vez de anticorpos, identifica nas amostras de sangue traços de vírus - o HIV ou o da hepatite C. No caso da aids, a janela imunológica passará de 21 para 10 dias. De hepatite, de 60 para 11 dias. / COLABOROU KARINA TOLEDO

PARA LEMBRAR

Aids: heteros são maior parte

De acordo com o Boletim Epidemiológico Aids 2010, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, dos novos casos de aids registrados em 2010 em maiores de 13 anos, 20,7% dos homens eram homossexuais, 43,4% eram heterossexuais e 7,8% eram bissexuais. Considerando o período de 1980 até junho de 2010, do total de homens infectados no País, 20,6% eram homossexuais, 31,2% eram heterossexuais e 11,8% eram bissexuais. No entanto, é preciso considerar que a maioria da população é de heterossexuais. Em São Paulo, 35% das pessoas infectadas pelo vírus em 2009 eram homossexuais.

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