Governo amplia indicação do uso de antirretroviral para paciente com HIV

Saúde. Estratégia de medicar pessoas em estágios menos avançados da doença tem o objetivo de reduzir o risco de transmissão; mudança, aprovada pelo Consenso Terapêutico, deverá fazer com que mais 35 mil pacientes passem a receber os medicamentos no País

LÍGIA FORMENTI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h03

O Ministério da Saúde vai ampliar a recomendação do uso de antirretrovirais para pessoas com HIV no País. A prescrição do remédio começará a ser feita em estágios menos avançados da doença. Além disso, soropositivos com parceiros sem HIV poderão começar a tomar o remédio em qualquer estágio, independentemente da contagem de células de defesa no organismo (CD4).

A estratégia para casais sorodiscordantes - quando somente um dos parceiros é portador do vírus - já vinha sendo adotada informalmente por um número pequeno de médicos. Agora, ela é recomendada de forma expressa no documento, preparado na semana passada por especialistas.

Pelo novo protocolo, pacientes com HIV com exame de CD4 igual ou inferior a 500 passarão a ter indicação para uso de remédios. A mudança deverá ampliar em 35 mil o número de pessoas no País usando antirretrovirais. Hoje, são 217 mil em tratamento.

Desde 2008, o País vem antecipando a indicação do uso de antiaids. Naquela época, o remédios era indicado quando a contagem de células CD4 era igual ou inferior a 200. "A mudança foi tomada após estudos mostrarem a queda do risco de transmissão quando o paciente inicia precocemente o uso de antirretrovirais", afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. De acordo com ele, o Brasil será o terceiro país com distribuição gratuita de remédios a adotar essa estratégia. No momento, Argentina e Bolívia seguem protocolo semelhante.

Padilha não acredita que haverá abusos na indicação. "Os médicos saberão o momento certo de indicar. Antirretrovirais trazem efeitos colaterais." Ele enfatizou ainda que o uso do preservativo deve ser mantido.

Crítica. O anúncio da ampliação da indicação de antirretrovirais é feito num momento em que o programa de aids do País se vê sob fogo cerrado. Na semana passada, um manifesto de médicos, professores e integrantes de movimentos sociais circulou com severas críticas à estratégia brasileira. O grupo cobra ações mais ousadas, sobretudo para prevenção entre os mais vulneráveis, como jovens gays, e diz que o País relaxou no combate à doença.

Além do manifesto, ONGs agendaram para hoje e amanhã protestos contra o retrocesso do programa de aids. Padilha fala em três desafios essenciais: reduzir o diagnóstico tardio - o que limita o sucesso do tratamento -, diminuir novas infecções entre grupos mais vulneráveis e evitar a interrupção de remédios. "Isso nós já resolvemos."

Padilha apontou três estratégias para melhorar as condições do programa - entre elas, o lançamento do 3 em 1 (tenofovir, 3 TC e efavirenz) e do 2 em 1 ( 3TC e efavirenz), combinações de drogas em um único medicamento. "Isso facilita a vida do paciente e reduz os custos." A expectativa é de que a economia chegue a R$ 500 milhões em quatro anos.

Outras medidas serão a ampliação de testes para diagnóstico da doença e maior ofensiva nas campanhas de conscientização. Ele afirmou que 8 milhões de testes rápidos foram adquiridos e os recursos para campanha, ampliados de R$ 12 milhões para R$ 22 milhões este ano.

A abordagem nas campanhas publicitárias foi uma das grandes críticas feitas pelas ONGs, que acusam o governo de ter retirado duas ações desenvolvidas para jovens gays, por pressão de grupos religiosos. Algo que o ministro não admite. "A campanha foi veiculada, mas em locais restritos."

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