Governo argentino baixa impostos, mas produtores mantêm protestos

Medidas prevêem novos cálculos para cobrança de impostos às exportações.

Marcia Carmo, BBC

29 de maio de 2008 | 23h30

O governo argentino anunciou nesta quinta-feira mudanças na cobrança de impostos para o setor agropecuário, na tentativa de chegar a um entendimento com os produtores rurais, que completaram 80 dias de protestos contra as medidas oficiais. As novas medidas, no entanto, foram recebidas com críticas pelos líderes rurais, e os protestos deverão ser mantidos.Coube ao chefe de gabinete da Casa Rosada (Presidência do país), Alberto Fernández, e ao ministro da Economia, Carlos Fernández, fazer o anúncio, após reunião com a presidente Cristina Kirchner. As medidas prevêem novos cálculos para a cobrança de impostos às exportações, no mercado futuro, de soja, trigo, milho e girasol. "Para os pequenos produtores, a cobrança de impostos (que era de 35%) ficará entre 25% e 29%", disse Alberto Fernández, no anúncio transmitido pela TV argentina. "Hoje, mesmo com os impostos (que geraram a polêmica), os produtores rurais argentinos têm uma rentabilidade maior do que a dos brasileiros", afirmou. No caso da soja, por exemplo, o imposto que antes seria de 58% cairia para cerca 52%. No caso do trigo, o recuaria de 46,3% para 41,6%. ReaçãoLíderes do setor rural reagiram imediatamente após os anúncios."O governo fez anúncios para o mercado futuro, mas não mudou nada no quadro atual", disse Ricardo Buryaile, vice-presidente das Confederações Rurais Argentinas (CRA). "Hoje, o preço da soja é de US$ 500 (a tonelada), mas a queda dos impostos só ocorreria quando o preço chegar ao top de US$ 700. É uma tremenda decepção. Como ficamos até lá?"O presidente da Sociedade Rural, Luciano Miguens, considerou as medidas "unilaterais" e disse que "uma vez mais o governo não aceitou o diálogo". "As alíquotas não mudam as cobranças atuais, que são bem acima daqueles 35% cobrados até 10 de março", afirmou. Ao ser questionado sobre a reação negativa dos líderes rurais, o chefe de gabinete disse que o protesto dos produtores é "inadmissível"."Desse jeito não há mais o que dialogar. Vamos continuar trabalhando", afirmou Alberto Fernández.Durante o anúncio, o chefe de gabinete disse ainda que, ao contrário do que afirmam os produtores, entre abril e maio o país exportou 30 mil toneladas de carne e só não exportou mais trigo porque os produtores não estão entregando o total produzido. Essa declaração também foi rejeitada pelas lideranças rurais."O governo disse que se exportou carne nos últimos dois meses. Mas omitiu que em vez de 30 mil, deveriam ter sido exportadas 140 mil toneladas nesse período", disse Buryaile. InícioA medida que gerou os protestos dos ruralistas foi anunciada no dia 11 de março e previa o aumento da cobrança de impostos de acordo com a valorização do produto no mercado internacional. Os líderes ruralistas chegaram a afirmar que, em alguns casos, eles deveriam pagar até 95% de impostos ao governo. Os protestos envolveram o bloqueio de estradas e panelaços nas principais cidades argentinas e chegaram a provocar desabastecimento no país. As manifestações se transformaram na maior crise enfrentada pela presidente Cristina Kirchner desde que assumiu o poder, em dezembro passado, e acabaram provocando a queda do ministro da Economia, Martín Lousteau. Também levaram o Banco Central a vender reservas para conter a alta do dólar frente ao peso - a moeda local. Depois de algumas tréguas, na última terça-feira os produtores retomaram os protestos, pela terceira vez desde março. Desta vez, com a suspensão das exportações de grãos e carne, entre outras ações. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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