Governo do Líbano e Hezbollah fecham acordo de paz

Proposta diz que grupo xiita terá poder de veto em governo de unidade; país escolhe presidente no domingo

Tariq Saleh, BBC

21 de maio de 2008 | 06h20

A maioria governista e a oposição do Líbano, liderada pelo Hezbollah, chegaram a um acordo para eleger um novo presidente, colocando fim a 18 meses de uma crise política que levou o país à beira de uma guerra civil. O acordo estabelece a aprovação de novas leis eleitorais para 2009 e a formação de um novo governo de unidade nacional com poderes de veto para a oposição, liderada pelo movimento xiita Hezbollah.   Veja também: Entenda as divisões e a crise política Perfil do Hezbollah O acordo, anunciado nesta quarta-feira, 21, pela manhã depois de seis dias de negociações em Doha, capital do Catar, prevê que as duas facções elegerão o comandante do Exército libanês, general Michel Suleiman, como o novo presidente. Depois do anúncio do acordo que prevê o encerramento de uma crise política iniciada há um ano e meio, a agência estatal de notícias do Líbano informou que o Parlamento se reunirá no domingo para eleger o general Michel Suleiman presidente do país. O Líbano está sem presidente desde novembro do ano passado, quando terminou o mandato de Emile Lahoud.   O governo libanês também queria garantias de que o Hezbollah não usaria suas armas internamente e que houvesse uma futura discussão sobre um desarmamento do grupo.  Pelo acordo, os líderes libaneses prometeram não recorrer à violência para fins políticos, deixando para o novo presidente discutir com o Hezbollah a questão do desarmamento.   Com o pacto, o oposicionista Hezbollah (Partido de Deus) e seus aliados saíram fortalecidos ao verem atendidas suas principais demandas, entre elas o poder de veto sobre todas as decisões do governo. Além do poder de veto, o Hezbollah também conseguiu ver atendida outra demanda: uma lei eleitoral que divide o país em distritos menores, o que permitiria uma melhor representação política das diversas seitas do país.    O líder governista Saad Hariri qualificou o acordo como "uma nova página na história do Líbano", país que esteve à beira de uma guerra civil no decorrer das últimas semanas por causa de atos do governo contra o Hezbollah. Segundo Hariri, ele e seus aliados governista fecharam o acordo "com dor no coração". As negociações levaram seis dias e estiveram à beira do colapso, pois nenhum dos lados mostrava sinais de que ia recuar em suas demandas. Os pontos mais sensíveis eram as novas leis eleitorais e as armas do grupo Hezbollah. Na segunda-feira, membros das duas facções políticas estiveram a ponto de deixar as reuniões. Segundo analistas, a questão é se os dois lados cumprirão o que prometeram, já que, no passado, outros acordos foram rompidos. As negociações foram intermediadas por uma delegação da Liga Árabe, chefiada pelo primeiro-ministro e ministro de Relações Exteriores do Catar, Hamad bin Jassim bin Jabr Al-Thani, e o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa. A delegação esteve em Beirute, capital do Líbano, na quinta-feira, para aproximar as duas partes e fechar um acordo para que as negociações continuassem em Doha. O Líbano está sem presidente desde novembro de 2007, quando Emile Lahoud, que é pró-Síria, deixou o cargo ao fim de seu mandato. Desde então, as duas facções políticas não conseguiam eleger seu sucessor. A crise se intensificou quando o governo aprovou duas medidas que previam uma investigação da rede de telecomunicações do Hezbollah e a exoneração do chefe de segurança do aeroporto de Beirute porque ele seria simpatizante do grupo xiita. As medidas provocaram revolta no Hezbollah, que respondeu com protestos em Beirute e outros pontos do país que logo enveredaram para a violência. Houve batalhas entre milícias pró e antigoverno. O grupo xiita e seus aliados derrotaram as forças governistas e ocuparam todo oeste de Beirute. Os combates pesados entre as duas facções na capital e também em Trípoli, no norte, nas montanhas e em outras cidades do leste do país levaram vários estrangeiros e libaneses a deixar o país. A onda de violência, que durou seis dias, deixou ao menos 65 mortos e 200 feridos. O governo do Líbano acabou voltando atrás na quarta-feira passada, revogando oficialmente as duas medidas contrárias ao Hezbollah como forma de abrir o caminho para negociações e acalmar a crise. Após a divulgação do acordo, o Hezbollah anunciou que estava encerrando a desobediência civil, desbloqueando estradas e avenidas da capital Beirute e liberando o acesso ao aeroporto da capital libanesa. Os recentes conflitos nas ruas foram a pior crise no Líbano desde o final de sua sangrenta guerra civil (1975-1990).   (Com BBC Brasil e Agência Estado e Associated Press)   Matéria atualizada às 09h30.

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