Governo redesenha ofensiva de bancos estatais para baixar spread

Preocupado com possíveis resultados indesejados da campanha para reduzir os spreads bancários, o governo mandou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal esperarem um pouco mais para reduzir juros, enquanto tenta convencer críticos da ideia de que a medida não é populista.

ALUÍSIO ALVES, REUTERS

22 Março 2012 | 12h42

"O governo está conversando antes de por o projeto em ação", disse à Reuters uma fonte no governo a par do assunto.

Uma ofensiva maior dos bancos estatais, reduzindo juros de diversas linhas de financiamento ao consumo, para forçar o todo o sistema a reduzir os spreads historicamente altos no Brasil, foi cobrada no começo do ano pela presidente Dilma Rousseff.

No mês passado, o BC informou que o spread -diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada do tomador- atingiu 27,8 pontos percentuais em janeiro, contra 26,9 pontos em dezembro.

Os anúncios de cortes de juros por BB e Caixa deveria ter vindo a público esta semana, mas foram recolhidos. Motivo: o vazamento de informações sobre pontos do programa, tais como as linhas afetadas e o tamanho dos cortes, começou a gerar críticas públicas.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, por exemplo, afirmou que o assunto não pode ser baseado numa agenda política, mas sim técnica.

O assunto é mais sensível no caso do BB, que é listado em bolsa. Uma redução mais agressiva dos juros poderia ser interpretada como um nocivo intervencionismo para turbinar a economia às custas de menor rentabilidade do banco (e dividendos aos acionistas).

Nesta quarta-feira, um emissário do governo conversou com o presidente da Fabraban para tratar do assunto.

Enquanto isso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também determinou que os bancos fizessem ajustes no programa. O ministro não gostou, por exemplo, de um plano do BB de criar uma taxa única de juro, produto que permitiria a certos correntistas tomar, com o mesmo juro, empréstimos do cheque especial e do CDC, a 2 por cento ao mês.

O roteiro do programa também deve ser refeito. Inicialmente, BB e Caixa anunciariam os cortes simultaneamente. Para tentar reduzir a impressão de intervencionismo numa empresa aberta, contudo, o BB deve anunciar seu pacote alguns dias depois da Caixa.

Há também a discussão sobre o alcance da ofensiva, tanto em relação à dimensão dos cortes quanto às linhas que serão alcançadas com o programa. Uma corrente no governo considera que incluir cheque especial e cartão de crédito poderia ser arriscado, já que são linhas com menos garantias e poderiam estimular um perigoso aumento das taxas de inadimplência.

Alguns executivos dos bancos, no entanto, consideram a inclusão defensável, já que ambos têm níveis de inadimplência em torno de 2 por cento, bem menor que a média do sistema, de 5,6 por cento em janeiro, segundo dados do BC.

"Além disso, os bancos conseguiriam compensar parte da queda das margens financeiras provocadas pela queda dos juros com políticas diferenciadas de tarifas bancárias", disse outra fonte familiarizada com o assunto. Ou seja, juro menor e tarifa mais alta.

Por enquanto, os bancos estão refazendo contas e não há uma data prevista para anúncio dos cortes de juros. Os bancos estatais têm pressa pela implementação do programa, especialmente em São Paulo, onde a concorrência do setor privado está mais acirrada -sobretudo por clientes como funcionários públicos, os mais desejados pelos bancos.

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