Roberto Stuckert Filho/PR
Roberto Stuckert Filho/PR

Governo reduz exigência de idiomas

Candidatos a bolsas em universidades estrangeiras pelo Ciência Sem Fronteiras não precisarão conhecer a língua do país de destino

DAVI LIRA, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2013 | 02h01

O governo brasileiro diminuiu a exigência de conhecimento de alemão, francês, inglês e italiano para seleção de bolsistas do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF) que pretendem estudar em universidades na Alemanha, França, Austrália, Canadá, EUA e Itália. Com a medida, universitários com baixo nível ou até nenhum conhecimento nesses idiomas poderão ser selecionados para o intercâmbio - antes era exigido nível intermediário ou avançado da língua.

Com a flexibilização, o governo quer preencher um maior número de vagas do programa - a falta de conhecimento no idioma é um dos principais obstáculos para os brasileiros. O programa, que tem foco na área tecnológica, atingiu, até janeiro deste ano, apenas 22% da meta de enviar 101 mil bolsistas até 2015.

Os bolsistas que forem para o exterior com baixo conhecimento da língua estrangeira terão de participar de um curso intensivo para melhorar a proficiência. O curso também será bancado pelo governo federal, e o aluno terá de fazer uma prova para ingressar na universidade. Especialistas ouvidos pelo Estado, no entanto, alertam que mesmo com o curso de imersão os estudantes poderão não alcançar um nível adequado para acompanhar as aulas em outro idioma.

Isso porque, no caso dos bolsistas dos Estados Unidos e da França, de acordo com os editais, a duração prevista para o curso é de apenas dois meses, tempo considerado insuficiente para melhoria das habilidade linguísticas. Na Itália, a duração do curso é de apenas um mês.

Na chamada para seleção de bolsistas para os Estados Unidos, voltada para escolha de 200 estudantes dos Institutos Federais de Educação Tecnológica e das Faculdades de Tecnologia (Fatec), por exemplo, a pontuação exigida no Toefl (um dos exames aceitos pelo programa, que avalia o nível de inglês) é de apenas 27 pontos, em um total de 120. Com essa pontuação, o candidato é incapaz de manter uma conversação básica.

"Não deveríamos nivelar por baixo. Como será possível chegar em Harvard sem saber muito bem o inglês?", critica Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington, hoje editor do periódico Interesse Nacional.

A diminuição mais drástica da pontuação exigida, porém, aconteceu para a seleção na Austrália. O Toefl despencou de 90 pontos para 39 - ou seja, serão selecionados alunos com nível insuficiente em expressão oral.

"O estudante pode ter grandes problemas lá fora, já que ele vai ter de apresentar trabalhos e questionar os professores sobre temas complexos da área tecnológica", diz André Marques, diretor-geral da EF Englishtown, especialista em certificação.

Outros países. No caso da Alemanha, os três meses de curso são insuficientes, diz Dieter Gern, assistente administrativo do Instituto Goethe de São Paulo. "Para um estudante estrangeiro seriam necessários ao menos quatro." Já para a França, o tempo de curso é considerado adequado. "Com esses dois meses de curso, os estudantes conseguirão atingir o nível exigido pelas universidades", diz Carla Ferro da Campus France, da agência de promoção do ensino superior ligada ao governo francês.

Consultado, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um dos órgãos que administram o programa, afirma que a diminuição do nível do idioma exigido pelo programa não flexibilizou o mérito acadêmico: continuam sendo selecionados os melhores.

O Ministério da Educação (MEC) afirma que a flexibilização é necessária porque "boa parte dos alunos com excelente desempenho acadêmico é oriunda de escolas públicas e não tive acesso a cursos de idiomas de forma adequada". / COLABOROU OCIMARA BALMANT

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