Grávida acusa hospital público de se recusar a realizar seu parto no Rio

Hospital Ronaldo Gazolla contesta a versão da dona de casa que, segundo o órgão, ainda não precisava de internação

Fernanda Nunes, de O Estado de S. Paulo - Texto atualizado às 17h30,

05 de janeiro de 2013 | 12h42

RIO - Menos de duas semanas após uma menina ficar oito horas com uma bala na cabeça à espera de uma cirurgia no Hospital Municipal Salgado Filho porque um neurocirurgião faltara ao plantão de Natal, a ausência de médico em hospitais da rede pública carioca voltou a ser motivo de polêmica no Rio. Tatiane de Souza de Araújo, com 40 semanas de gravidez, acusou a equipe do hospital municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na zona norte, de se negar a interná-la e realizar o seu parto. Ela só conseguiu ser internada na sexta-feira, 4, após obter uma liminar na Justiça. O hospital Ronaldo Gazolla contestou a versão da dona de casa que, segundo o órgão, ainda não precisava de internação para que seu bebê nascesse. Tatiane, porém, deu à luz uma menina ontem na Maternidade Alexander Fleming, também municipal, em Marechal Hermes. A mãe e a criança passam bem.

A gestante contou que, ao procurar a maternidade na quinta-feira, 3, foi orientada a voltar para casa, porque o seu caso não foi considerado prioritário pela equipe médica, que, segundo ele, estava desfalcada. Já o hospital argumentou, por meio da assessoria de imprensa, que a grávida não estava em trabalho de parto e que, por isso, não havia motivo para que fosse realizada uma cirurgia cesariana, procedimento só adotado a partir da quadragésima-primeira semana de gravidez. A instituição também afirmou estar com a equipe completa. Segundo o hospital, o caso da menina Adrielly dos Santos Vieira está sendo usado por pacientes para forçar atendimento na rede pública, independentemente da avaliação médica sobre a necessidade do atendimento.

Adrielly, de 10 anos, tinha seu sepultamento programado para este sábado à tarde. Ela morreu na sexta-feira, após ter sido atingida por uma bala perdida na porta de sua casa, em Piedade, na noite de Natal, e ter esperado por atendimento médico por oito horas no Hospital Municipal Salgado Filho, porque o neurocirurgião Adão Crespo Gonçalves, que deveria estar de plantão, faltou ao trabalho. O profissional alegou que já faltava havia um mês, por discordar da forma como a escala é feita, sem que haja dois neurocirurgiões ao mesmo tempo, como recomenda o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj). Removida para o Hospital Municipal Souza Aguiar, Adrielly foi operada, mas teve morte cerebral constatada em 30 de dezembro e, na última quinta, seu coração parou de bater.

Segundo a assessoria da maternidade Ronaldo Gazzola, Tatiane teria se referido ao caso da menina e ameaçado procurar a imprensa caso não fosse internada para a cirurgia. A repórteres, Tatiane afirmou que chegou à maternidade por volta das 16h de quinta, perdendo líquido amniótico e com fortes dores no abdômen.

Sem atendimento, a gestante seguiu para o Hospital Federal de Bonsucesso, onde foi orientada a retornar ao Ronaldo Gazolla, onde realizara o seu exame pré-natal. Frustrada nas duas tentativas de internação, recorreu à 39ª Delegacia de Polícia, na Pavuna, onde os policiais orientaram a grávida e o seu companheiro, o vigilante Izaías de Souza, a procurar o plantão judiciário para que conseguissem uma liminar. Com o documento nas mãos, eles teriam retornado ao hospital em Acari. A maternidade negou, contudo, a existência da liminar. / COLABOROU MÔNICA CIARELLI

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