Grécia diz ter ganhado tempo após acordo com zona do euro

O governo de esquerda da Grécia insistiu neste sábado que evitou ser "estrangulado" pela zona do euro, que concordou em princípio em estender o acordo de socorro financeiro com o país, enquanto poupadores nervosos retiravam grandes somas dos bancos gregos.

REUTERS

21 Fevereiro 2015 | 10h55

Atenas disse que o acordo fechado no fim da sexta-feira em Bruxelas deve acalmar os gregos que temem que controles de capital pudessem ser impostos como um prelúdio para a saída do país do euro. Contudo, alguns eleitores questionaram o que os novos líderes conseguiram em semanas de negociações com a linha-dura da zona do euro, liderada pela Alemanha.

Depois de negociações difíceis, a Grécia assegurou na sexta-feira uma extensão de quatro meses do financiamento da zona do euro, o que vai evitar a quebra e a saída do euro, desde que o país apresente promessas de reformas econômicas na segunda-feira.

"Ganhamos tempo", disse Gabriel Sakellaridis, porta-voz do governo. "A economia grega e o governo grego não foram estrangulados, como era talvez o plano político original de centros no exterior e dentro do país", disse ele à Mega TV, sem dar nomes aos linha-dura da zona do euro que forçaram o governo a um recuo em Bruxelas.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, disse neste sábado que o acordo cancelou os compromissos de austeridade firmados pelo governo conservador anterior com os credores internacionais do país.

"Ontem tomamos um passo decisivo, deixando a austeridade, os resgates e a troika", disse em comunicado televisionado. "Vencemos uma batalha, não a guerra. As dificuldades, as reais dificuldades... estão à frente."

Tsipras recebeu amplo apoio no país pelo que os gregos viram como a primeira vez em que seus líderes jogaram duro, em vez de ir a Bruxelas com o chapéu na mão receber ordens de Berlim. No entanto, o governo também estava sob intensa pressão doméstica.

Cerca de 1 bilhão de euros deixaram contas bancárias gregas na sexta-feira, disse um importante banqueiro à Reuters, devido ao temor de que as negociações fracassassem e de que Atenas pudesse ter que impedir as retiradas bancárias ou preparar a retomada da moeda nacional.

O valor se soma a estimados 20 bilhões de euros (23 bilhões de dólares) que os gregos retiraram dos bancos desde dezembro, quando se tornou claro que a o partido radical Syriza, de Tsipras, ganharia as eleições parlamentares do mês passado.

Diante do risco de uma corrida caótica aos bancos na terça-feira, depois de um fim de semana prolongado, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, enfatizou que o acordo deve acalmar os poupadores.

"Está bem claro que a razão pela qual tivemos uma retirada de depósitos foi o fato de que todos os dias, mesmo antes de sermos eleitos, os gregos têm ouvido que se ganhássemos e permanecêssemos no poder por mais do que alguns dias os caixas eletrônicos deixariam de funcionar", afirmou ele à imprensa em Bruxelas. "A decisão coloca um fim a esse medo, a esse alarmismo."

Buscando acalmar os gregos preocupados com o feriado de segunda-feira, uma fonte do Banco Central Europeu afirmou depois do acordo que controles de capital estavam fora de cogitação.

A vitória no mês passado do Syriza, que prometeu reverter as políticas de austeridade ditadas pelo programa de socorro da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, criou grande expectativa na população.

No entanto, sob o acordo de sexta-feira, Atenas concordou com uma extensão do resgate que o novo governo prometia cancelar e aceitou o monitoramento pela odiada "troika", grupo de autoridades da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, embora agora sob um novo nome.

"Passamos por dois meses de agonia, esvaziamos os bancos, para nos darmos conta de que ainda somos uma colônia da dívida", disse à Reuters o eletricista de 54 anos Dimitris Kanakis.

Entretanto, o acordo abriu a possibilidade de se reduzir a meta de superávit primário da Grécia, liberando fundos para aliviar o que Tsipras chama de "crise humanitária" no país.

O porta-voz Sakellaridis declarou que o acordo, que depende de os ministros da zona do euro aceitarem os planos de reforma gregos na segunda-feira, é somente o primeiro passo. Ele também admitiu a dificuldade de um governo tão recente em negociar com os ministros europeus pesos-pesados.

"Estas últimas três semanas foram duras para o novo governo que, não vamos nos enganar, não tem a experiência relevante”, disse.

"A batalha de fato começa agora", acrescentou.

O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, afirmou que os políticos gregos, acostumados a fazer oposição, tiveram que acordar para as exigências de ser governo.

"Estar no governo é um encontro com a realidade, e a realidade não é frequentemente um lugar tão bom quando um sonho", afirmou o veterano político. "Os gregos certamente terão um período difícil para explicar o acordo para os seus eleitores."

Atenas precisa agora negociar um acordo de longo prazo antes de que a extensão termine no início do verão (inverno no Hemisfério Sul).

(Por George Georgiopoulos e Alastair Macdonald)

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