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Grupo revela nomes dos carrascos de Stalin

Entre 1935 e 1939, mais de 600 mil pessoas foram executadas, mas o Kremlin manteve as mortes em segredo mesmo após morte de ditador

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2016 | 05h00

MOSCOU - Um grupo de defesa dos direitos humanos russo publicou um banco de dados contendo informações pessoais de 40 mil membros da infame força de segurança que levou a cabo as execuções ordenadas pelo ditador soviético Joseph Stalin, trazendo à luz um período da história que o Kremlin desejava manter oculto.

O arquivo, constituído a partir de registros sobre as forças de segurança de Stalin e postado no website do grupo Memorial, traz pela primeira vez os nomes dos responsáveis pelas 600 mil execuções que ocorreram entre 1935 e 1939, durante o período do chamado “Grande Terror” soviético. 

Nos últimos anos, o presidente russo, Vladimir Putin, fez uma revisão do legado de Stalin, para enfatizar o papel do ditador na derrota da Alemanha nazista durante a 2.ª Guerra e na transformação da União Soviética em uma potência mundial na Guerra Fria.

Detalhes das execuções, em que líderes do Partido Comunista e cidadãos comuns foram julgados sumariamente e condenados, geralmente com base em acusações forjadas, foram apagados dos livros escolares e do discurso público.

Crimes. “Até agora, se alguém fizesse alguma menção às vítimas era como se tivessem morrido em consequência de um desastre natural, como um terremoto ou um tsunami”, disse Yan Rachinsky, do grupo Memorial, ao jornal The Washington Post. “Mas elas foram vítimas de crimes e esses crimes foram cometidos por pessoas”, acrescentou.

A resposta do Kremlin foi muito menos entusiástica. “Não farei nenhum comentário. É um assunto muito delicado”, declarou o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, segundo a agência de notícias Interfax.

Milhões de pessoas foram presas ou assassinadas durante as três décadas de governo Stalin, mas o Estado totalitário soviético manteve essas execuções em segredo mesmo após a morte do ditador, em 1953. Com o colapso da União Soviética, os russos, muitos deles parentes de vítimas, se interessaram pelo caso e o Memorial e outros grupos ativistas de direitos humanos se empenharam em identificar as vítimas.

Mas os arquivos da KGB e agências predecessores jamais levaram a público esses documentos e o país nunca fez seu ato de contrição. Sob o governo Putin, ex-membro da KGB, Stalin foi reabilitado como o grande líder que cometeu alguns erros, e o Memorial taxado de “agente estrangeiro” com base em lei cuja finalidade é marginalizar organizações não governamentais. 

Dados vão ajudar parentes das vítimas. “A Rússia nunca passou por um processo de “desestalinização” e a sociedade russa contemporânea tem pouco conhecimento do que foi esse período do ‘Grande Terror’”, afirmou ao jornal The Washington Post Tanya Lokshina, diretora para a Rússia da organização Human Rights Watch. 

“O grupo Memorial vem realizando um trabalho extremamente importante, identificando e homenageando os milhares de vítimas e agora fornecendo os nomes de seus carrascos. Esta é uma parte inalienável do trabalho de se fazer justiça em memória das vítimas, e também ajudar os russos a se reconciliar com sua história.”

Até agora aqueles que desejavam reconstruir a história das vítimas enfrentavam árdua batalha para obtenção dos registros e grande dificuldade para determinar os nomes nos documentos aos quais tinham acesso. 

A publicação feita pelo Memorial ocorre alguns dias após Denis Karagodin, de 34 anos, residente na cidade de Tomsk, na Sibéria, anunciar ter conseguido rastrear os nomes dos homens que participaram do assassinato de seu bisavô, um camponês executado em 1938, acusado de espionar para o Japão. 

O jovem disse à Radio Liberty que sua pesquisa durou cinco anos e teve de convencer os arquivistas dos serviços de segurança a lhe mostrarem os documentos que o ajudaram a reconstruir a cadeia de acontecimentos, desde as autoridades que deram as ordens até seus executores.

Documentos. “Os historiadores e especialistas que contatei não acreditaram que eu conseguira obter os documentos”, disse. “Alguns ficaram surpresos com o fato de que tais documentos ainda existem e é possível obtê-los. Talvez eu seja a primeira pessoa na história da Rússia a ter acesso a essa documentação.” Segundo Karagodin, “essa é uma chave que pode e deve ser usada para desvendar o segredo oculto (dos agentes da NKVD). Ele disse que a avó de um dos homens que executou seu bisavô lhe escreveu uma carta, pedindo perdão, depois de ler a história em seu blog.

Segundo Yan Rachinsky, do Memorial, o arquivo recém-divulgado, além de ajudar as pessoas a descobrir o destino de parentes, é também uma mensagem aos líderes da Rússia. “Nosso governo não quer admitir que a União Soviética foi um Estado criminoso. Mas os nomes dos “criminosos” são conhecidos: e aqueles que cumpriram as ordens devem saber agora que seus nomes, também, serão conhecidos. 

 

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