Grupo traz à tona dificuldades

Pacientes trocam experiências sobre doença

O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2012 | 03h06

A estigmatização do HIV ainda é uma questão que pesa no cotidiano dos pacientes. Ela aparece nos conflitos que os soropositivos têm com as famílias, na dificuldade de manter um emprego fixo com as idas frequentes ao médico e no desafio de encontrar um companheiro que aceite a doença. A questão ficou clara na reunião do grupo Tá Difícil de Engolir?, que aconteceu anteontem.

Um dos pacientes conta que quase morreu por negar a medicação. "Comecei a tomar o remédio aqui no hospital, quando fiquei internado por um mês. Só encarei o HIV de frente quando fiquei mal e cheguei a pesar 35 quilos." Na época, quando contou ao médico que queria morrer, por isso preferia não ser medicado, o especialista respondeu que, caso levasse seu plano adiante, ele poderia não morrer, mas ficar com sequelas graves.

Foi então que ele assumiu a doença e entendeu que, a partir daquele momento, teria de lutar contra ela. No caso desse paciente, a depressão e a falta de autoestima, que o levou a quase desistir do tratamento, envolve a dificuldade que enfrentou em se aceitar como homossexual.

O assistente social Claudemir Leite de Almeida, que acompanhou o grupo, conta que a associação desses dois fatores - ser homossexual e soropositivo - torna a carga do estigma ainda mais pesada.

"O drama de assumir a orientação sexual, que é diferente do que a sociedade entende como 'certa', é um muito grande. Isso implica em revolta, em não aceitação. Quando você soma isso com problema de saúde, de ter uma doença que não tem cura, é possível ver quantas situações podem fazer com que a pessoa não tenha adesão ao tratamento", diz Almeida.

Outro paciente do grupo observa que, ainda hoje, a sociedade vê o paciente soropositivo como o culpado por sua própria condição. Esse julgamento aparece principalmente nos comentários dos familiares. "Esse preconceito é difícil para todos. Também não é fácil para um hétero ter de enfrentar a família e contar sobre o diagnóstico."

Esse julgamento faz com que muitos pacientes procurem esconder a doença. Estratégias comuns são guardar os medicamentos em frascos de suplementos vitamínicos. "Vi um adolescente de 17 anos pegando o remédio na farmácia e ele escondeu rapidamente as embalagens. São os mesmos problemas que nós tivemos há dez anos. Que futuro o espera?" / M.L.

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