Grupos brasileiros atraem executivos de multinacionais

Profissionalização de empresas familiares no País abre novos espaços

Marianna Aragão e Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

17 Dezembro 2009 | 00h00

A abertura de capital e a internacionalização de empresas brasileiras nos últimos anos abriram uma nova fronteira de trabalho para executivos que tradicionalmente trilhavam carreira em multinacionais. Com a formação de conselhos de administração e a profissionalização da gestão, grupos nacionais passaram a demandar profissionais do mercado para vagas até então ocupadas por membros das famílias. O bom momento atravessado por companhias de alguns setores de destaque, como o agronegócio, também tem despertado maior interesse desses executivos.

"Muitos que pensavam que só o "mundo das múltis" era bom estão migrando para grupos nacionais", diz Luiz Alberto Panelli, sócio da consultoria de recrutamento de executivos Amrop Panelli Motta Cabrera. Segundo ele, essa tendência se intensificou nos últimos cinco anos, graças à modernização das estruturas das companhias nacionais. "Com o movimento de IPOs, as empresas passaram a atuar com aderência às melhores práticas de governança corporativa. Isso criou um terreno fértil para os executivos", diz o headhunter, que ajudou a realizar algumas dessas transições nos últimos anos.

O engenheiro paulista Fábio Venturelli, de 44 anos, fez essa transição recentemente. Após galgar quase todos os degraus na estrutura da multinacional americana Dow Química - em 21 anos, foi de trainee a vice-presidente global de assuntos estratégicos -, ele assumiu a presidência da produtora de açúcar e álcool São Martinho em agosto de 2008. O tradicional grupo, controlado pela família Ometto, do interior de São Paulo, começou a profissionalizar sua gestão há nove anos. Em fevereiro de 2007, fez sua abertura de capital. "Me fascinou o desafio de liderar uma companhia aberta em um momento que o Brasil descobre o que é ser uma companhia aberta."

Segundo o executivo, a perspectiva de crescimento do setor sucroalcooleiro também o animou. "É uma empresa brasileira com ambição de crescer. Essa cultura progressista se reflete nas pessoas. Há muita liberdade e criatividade."

Já o executivo Ernesto Pousada Junior foi atraído pela possibilidade de voltar a empreender. Após 16 anos liderando equipes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, também na Dow Química, ele deixou a empresa há cinco para ocupar o posto de diretor de operações da paulista Suzano Papel e Celulose. "O primeiro fator que me levou à mudança foi a oportunidade de empreender", diz.

Isso porque, explica o executivo, diferentemente de uma multinacional centenária, onde os processos estão padronizados e consolidados, a gestão de muitas empresas nacionais ainda está em fase de consolidação. "Eu posso ajudar a estruturar esses processos. Numa nacional é a gente que tem de fazer."

Mas um certo patriotismo também contou na decisão, admite. "Quando eu estava fora do Brasil, comecei a ver que o País estava começando uma pontinha de crescimento. E a gente quer participar. Estou com 42 anos, e ver que o Brasil começa a acontecer é algo que mexe com a gente para contribuir."

A experiência no exterior tem sido essencial para essa contribuição. "Vivenciei o aspecto da globalização, vivi em vários países, lidei com diversas culturas. E um dos desafios da Suzano é se tornar uma empresa global. Abrimos escritório na Europa, China, EUA", diz. "Consolidar a globalização é um desafio de empreender."

Segundo Roberto Britto, da consultoria Robert Half, especializada em recrutamento de executivos, as diferenças entre os ambientes corporativos de uma múlti e de uma nacional são grandes. Numa multinacional, existe uma padronização de processos muito forte, trazida da matriz do exterior. Já numa empresa nacional, a liberdade de atuação é maior e os processos, mais ágeis.

"A pessoa tem mais liberdade para criar. As tomadas de decisões são mais rápidas por ela estar mais próxima do centro de controle." Por isso, a transição pode requerer competências específicas. "O executivo tem de ser um agente de mudança, ser capaz de influenciar pessoas e saber implementar uma cultura", diz.

Isso torna o trabalho do executivo de uma empresa nacional mais visível. "Existe numa multinacional um grande saber adquirido. Muitas pessoas são responsáveis pelo sucesso ou fracasso de um mesmo produto", diz Denys Monteiro, da Fesa, especializada em seleção de altos executivos. "Já numa nacional, o resultado acaba mais atribuído à pessoa."

Isso ocorre, na opinião dele, devido ao próprio tamanho da companhia. "Quanto menos níveis entre a pessoa e o presidente, mais fácil ter a sua contribuição reconhecida."

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