Guerra fiscal franco-suíça

Uma nova guerra eclodiu neste mundo atormentado. Desta vez, entre França e Suíça.

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

18 Dezembro 2009 | 00h00

Claro que aviões Rafale não serão lançados contra o São Gotardo ou contra o Lago Léman. Entre países civilizados, quando se disputa, não se faz uso de canhões, mas de dinheiro (euros, francos suíços). Não se mata. Mas se prejudica.

Tudo começou há quatro meses, no auge do verão. Em 30 de agosto, o ministro francês do Orçamento, Eric Woerth, anunciou ter recuperado os nomes de três mil franceses que mantinham contas secretas na Suíça.

Imediatamente, todos os franceses que ocultaram suas fortunas no "paraíso suíço" tremeram. E se os seus nomes fizessem parte da famosa listas? Houve muita gente com insônia nas vilas da Côte d" Azur, neste verão.

Mas havia um mistério: como essa lista chegou ao gabinete do ministro francês? Teria sido um roubo? O ministro disse que não. Ficou indignado. Como poderiam suspeitar dele? Alguns meses se passaram. Na semana passada, o jornal Le Parisien assegurou que a lista foi roubada.

O ministro foi interrogado. Envergonhado, baixou os olhos e disse "sim" .

De fato, o documento foi surrupiado. Um empregado de um banco suíço, Hervé Falciani, foi quem se apoderou da lista e a vendeu muito caro, procurando refúgio, depois disso, num país apropriado, Mônaco.

Decididamente, o rapaz conhece bem os "paraísos certos".

Em Berna, a agitação foi grande. Todo mundo furioso. O presidente da Confederação, Hans Rudolf Merz, que também é ministro da Justiça, ficou em cólera. Disse que era "inconcebível que Paris tenha utilizado dados obtidos de maneira ilegal". E afirmou também: "vamos contra-atacar. Suspendemos a ratificação da convenção fiscal firmada com a França em agosto passado".

Essa convenção previa a troca de informações entre os dois países, de modo a permitir a suspensão do segredo bancário suíço em casos de evasão fiscal.

Essa convenção, que a Suíça tinha acabado de aceitar, é um instrumento fundamental na luta que a França empreende, após recomendações do G-20 (grupo dos 20 maiores países industrializados), para enfraquecer as muralhas pelas quais a Suíça protege o seu segredo bancário.

E a Suíça foi recompensada por isso. Foi tirada da lista negra ou cinzenta dos paraísos fiscais. Hoje, ela retornou à essa lista degradante.

PREJUÍZOS

A gafe do ministro francês Eric Woerth foi prejudicial para os dois grandes Estados europeus: a França, que foi vilipendiada por seus "métodos de Estado renegado"; e a Suíça também saiu prejudicada. Após a reunião do G-20 e diante da indignação de todos os grandes países, ela começava a reencontrar uma "virgindade" financeira e fiscal. Sabemos que o segredo bancário suíço não caiu completamente. Mas pelo menos ficou mais controlado. Menos arrogante.

Os únicos vitoriosos na história são os fraudadores franceses, gente da mais alta sociedade, vigaristas de smoking que se refestela em Marbella ou em Honolulu, e que colocaram seu dinheiro nos bancos suíços.

Ontem, os cidadãos suíços se sentiam encurralados. Viam chegar o momento em que eles teriam de abrir suas estufas para que ali caíssem alguns lingotes de ouro. Agora, podem voltar à sesta interrompida.

* Correspondente em Paris

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.