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Adriana Carranca
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Guerra nas Estrelas é aqui

O frenesi que precedeu a estreia do sétimo filme da série Guerra nas Estrelas, infiltrou o debate político internacional. Em um dos episódios mais hilários, o editor da New Statesman, Stephen Bush, e o colunista do site de opinião Breitbart.com, James Delingpole, travaram no programa Daily Politics, da BBC, uma altercação acalorada sobre que lados a Aliança Rebelde e o Império representam na geopolítica mundial.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2015 | 07h28

Para Stephen Bush, os Ewoks representam “o proletariado que se levanta contra o que é claramente um Estado quase fascista”, em sua ótica, o Império capitalista. “É bastante óbvio que a Aliança Rebelde está contra o Império do mal, provavelmente a URSS” rebateu Delingpole. “A tirania é a tirania da esquerda e não da direita.” Seria divertido – como os vários memes que circularam na internet esta semana, ora com Donald Trump no papel do vilão Darth Vader, ora com Hillary Clinton no “lado negro” da força – se não estivessem Bush e Delingpole debatendo seriamente. 

New Statesman é uma revista britânica de esquerda fundada em 1913. Em seu site, Delingpole se autodefine como “conservador libertário que escreve livros e artigos brilhantes”, odeia “os superestados socialistas europeus”, Gordon Brown e o “mito” do aquecimento global.

A esquerda e a direita, representadas por eles, têm tido mais voz no debate político polarizado na Europa. O partido eurocético e direitista Ukip surpreendeu ao conquistar 24 dos 73 assentos reservados a britânicos no Parlamento Europeu em 2014, após anos como legenda obscura. 

A derrota da Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, no domingo, na França, só pode ser assim entendida no contexto da ascensão espetacular do partido de extrema direita. No primeiro turno das eleições regionais conquistou 30% dos votos (foram 11,5% em 2010) e, mesmo derrotado, obteve no segundo turno recorde de votos, triplicou o número de representações locais e garantiu presença em todo o país. 

Em toda a Europa, partidos tradicionais têm sido obrigados a responder à ressurreição da extrema direita – na Polônia, Hungria, Suíça, Finlândia, Dinamarca, Holanda, Suécia, em diferentes proporções. A UE reconstrói seus muros – na Hungria, Eslovênia, Áustria –, cicatrizes no continente que se uniu no Pós-Guerra contra o nacionalismo xenófobo e o extremismo que levaram a Hitler e ao Holocausto. 

Com a ascensão da direita, a esquerda se exalta, radicaliza-se. Movimentos de extrema esquerda têm ressurgido na Europa, ávidos por mudanças radicais no sistema político – como na Grécia, onde a inabilidade da UE em lidar com a crise financeira levou à eleição do premiê Alexis Tsipras. 

À direita ou à esquerda, líderes radicais se beneficiam da crise de confiança por que passa a EU e do ressentimento do eleitorado ante a inabilidade da política de superar a crise econômica, questões como imigração e o terrorismo. Na Europa ou na América.

Um estudo de David E. Broockman e Douglas J. Ahler, da Universidade de Berkeley, divulgado esta semana, mostra que os eleitores têm hoje posições mais extremas que os representantes. É um eleitorado insatisfeito, o que gera frustração – que, por sua vez, alimenta o radicalismo, num loop sem saída. Esse afastamento ideológico entre democratas e republicanos se reflete na vida pessoal – pares ideológicos se fecham em grupos, as redes sociais exacerbam as divisões. 

A polarização ficou evidente em casos recentes como o ataque em San Bernardinho, cada lado moldando a tragédia conforme convicções próprias – do controle de armas à guerra ao terror. Cada lado enxerga o mundo sob o prisma ideológico; como em Guerra nas Estrelas. Tudo é enquadrado em termos maniqueístas – o lado escuro contra a luz; o bem contra o mal.

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