Guerra total

O vazamento do grampo da conversa entre Lula e Dilma Rousseff joga pressão sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal quando forem julgar toda e qualquer ação relativa à presidente e a seu novo ministro. Os juízes, especialmente os que tiveram seus nomes citados, estão diante do dilema da mulher de Cesar: não basta ser honestos, têm que parecer também. É inevitável que isso influencie os seus votos no tribunal. O episódio exemplifica o nível de tensão política dos próximos dias.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

17 Março 2016 | 05h24

Ao tentar voltar a 2010, Dilma e Lula anteciparam 2018 para 2016. Logo, a oposição e seus aliados vão se comportar como se estivessem disputando a eleição de suas vidas. Com Lula premiê, o PT não só joga sua última chance de manter-se no poder. Põe na mesa também a possibilidade de voltar a ocupá-lo no futuro - ao menos para esta geração de petistas. Esse é o tamanho da disputa que se vê desde já.

Não será bonito, mas tem uma vantagem. Tende a ser uma blitzkrieg, uma guerra total e rápida, em substituição ao desgastante fogo de barragem que se tem visto. Sai o bombardeio de saturação, entram as armas de destruição em massa. Apesar do grau de aniquilação e do potencial de fazer vítimas inocentes, tende a demorar menos e, assim, antecipar o fim da crise.

Nunca antes na história do Google, o nome de Lula havia sido tão procurado quanto há duas semanas, quando ele foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal. Nem quando era presidente. Nesta quarta-feira, porém, a curiosidade pelo novo ministro da Casa Civil bateu seu próprio recorde. Foi 20% maior. Março de 2016 é também o primeiro mês desde quando deixou a Presidência que Lula superou as buscas por “Dilma Rousseff”. 

O público, portanto, já sabe quem manda no governo a partir de agora. Essa mudança de foco faz parte da narrativa que o PT quer emplacar. Com Lula de primeiro-ministro, o partido tenta sair das cordas e voltar a ser o sujeito da história. É sua última chance - e as reações são proporcionais.

Os embates se darão em três ringues diferentes. Nas ruas, nos tribunais e nos bastidores do Congresso. Lula pode perder no primeiro, desde que não seja de maneira humilhante, mas tem que obrigatoriamente vencer nos outros dois. A alternativa é o impeachment e, eventualmente, uma condenação judicial.

Em uma guerra onde todos parecem estar feridos, como acompanhar o desenvolvimento das operações e saber quem está ganhando? A meta declarada de Lula premiê é reorganizar a economia, dar fim à recessão e preparar a retomada do crescimento. Esse é o objetivo estratégico, porque o bolso do eleitor explica a maior parte do seu comportamento. Mas esse alvo depende de manobras táticas anteriores para poder ser atingido.

A mais emergencial é resgatar o PMDB, que Dilma e o PT estavam prestes a perder para o PSDB e sua proposta de transição via um governo-tampão de Michel Temer. Na sua primeira missão, Lula marcou conversas com os principais líderes do PMDB, mas isso não quer dizer que conseguirá convencê-los.

Um bom termômetro aparecerá nesta sexta-feira, quando o conselho de ética do PMDB examinará o caso do novo ministro da Aviação, Mauro Lopes, nomeado nesta quarta-feira. Como isso ocorreu quatro dias após o partido ter decidido em sua convenção que haveria uma moratória de 30 dias para que peemedebistas ocupassem novos cargos no governo federal, Lopes pode sofrer sanções. Se isso não ocorrer, será um ponto para Lula.

No mesmo dia, haverá o termômetro das ruas. É para quando está marcada a manifestação em apoio a Lula na Paulista. O que se estará medindo não é apenas a quantidade de gente a favor do petista, mas também quantos estarão protestando contra ele. Isso se o STF não se antecipar e impugnar a nomeação de Lula para o ministério ou fazer algo mais drástico. Durma quem puder.

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